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Retina e vítreo

Descolamento da Camada de Bastonetes e Cones (BALAD)

1. O que é o Descolamento da Camada Bacilar (BALAD)?

Seção intitulada “1. O que é o Descolamento da Camada Bacilar (BALAD)?”

O Descolamento da Camada Bacilar (Bacillary Layer Detachment; BALAD) é uma separação intra-retiniana que ocorre entre a membrana limitante externa (ELM) e a zona elipsóide (EZ), ou seja, na região do mioide do segmento interno dos fotorreceptores (zona mioide; MZ), sendo um achado de OCT5).

O termo “bacilar” deriva da definição do neuroanatomista Polyak em 1941, que chamou os segmentos interno e externo dos fotorreceptores (IS-OS) de “camada bacilar”. O BALAD foi formalmente nomeado em 2018, quando Mehta et al. relataram esse achado de OCT em pacientes com toxoplasmose e doença paquicoroide1),3),5),9).

A incidência é rara, mas os relatos aumentam a cada ano. Na coorte de nAMD, a incidência foi de 4,5% (20 de 442 olhos), e no estudo HAWK foi relatada como 7,2%4). Na doença de Vogt-Koyanagi-Harada, a taxa de ocorrência é de até 47%9), e a frequência varia muito conforme a categoria da doença. As frequências relatadas por doença são: VKH 47%, APMPPE 11%, oftalmia simpática 7,3%, neovascularização coroidal 6,2%, toxoplasmose 5,5%, AIm 5,5%9).

Note-se que o primeiro relato de “acúmulo de fluido intra-retiniano na retina externa” foi um estudo de Maruyama & Kishi em 2009, com pacientes com doença de Vogt-Koyanagi-Harada9).

Q Com que frequência o BALAD é observado como achado de OCT?
A

Na nAMD, 4,5–7,2%; na doença de Vogt-Koyanagi-Harada, até 47%. É um achado raro, mas importante, e aparece frequentemente na fase aguda/exsudativa da doença.

Os sintomas subjetivos dependem da doença de base. Exemplos típicos são mostrados abaixo.

  • Perda de visão: A queixa mais comum. Na BALAD associada à nAMD, a média da melhor acuidade visual corrigida é 20/138, variando de CF a 20/400 1),4),5).
  • Metamorfopsia: Ocorre frequentemente quando a BALAD surge perto da fóvea.
  • Escotoma central: Aparece quando a lesão cobre a fóvea.
  • Moscas volantes: Em doenças inflamatórias, ocorrem quando há opacidade vítrea.

Doenças inflamatórias (como toxoplasmose, doença de Vogt-Koyanagi-Harada) geralmente têm início agudo 3),6). Por outro lado, doenças degenerativas ou baseadas em neovascularização de coroide (CNV) têm curso lento.

O diagnóstico de BALAD é feito por OCT. Os achados característicos são mostrados abaixo.

Estrutura da BALAD

Localização da cavidade hiporrefletiva: Cavidade de separação formada entre a ELM e a EZ (mioide do segmento interno do fotorreceptor) 5)

Características de refletividade intracavitária: Contém material hiperrefletivo flutuante com refletividade média 1),4)

Formato: Formato de pera com base em ângulo agudo (formato piriforme) é característico

Associação com SRF: Frequentemente acompanhado de líquido subrretiniano (SRF) 5)

Imagem Multimodal

FAF: Hipoautofluorescência central e anel de hiperautofluorescência ao redor 1)

OCTA: na nAMD, a neovascularização sub-retiniana pode ser detectada 4)

Locais de predileção: fóvea > parafóvea > peripapilar

Exemplos de CRT: em 3 casos de nAMD, foram registrados 929 μm, 598 μm e 543 μm 4)

O espessamento coroidal é encontrado em 93,8% dos casos de BALAD 8).

Subtipo de BALAD associado ao descolamento regmatogênico da retina

Seção intitulada “Subtipo de BALAD associado ao descolamento regmatogênico da retina”

Existem dois subtipos de BALAD que acompanham o descolamento regmatogênico da retina (RRD) 2).

  • Tipo teto foveal intacto: tipo com teto foveal preservado. Boa recuperação pode ser esperada com buckling escleral.
  • Tipo lamelar (tipo perda do teto foveal): tipo com teto foveal perdido. Há risco de progressão para buraco macular de espessura total (FTMH).
Q Como diferenciar BALAD e descolamento seroso da retina (SRF) comum na OCT?
A

SRF é uma cavidade de fluido hipoecóica formada entre o EPR e a retina neural. Já BALAD é uma separação que ocorre entre a ELM e a EZ (mioide), e também difere por conter material hiperecóico de ecogenicidade média dentro da cavidade. A avaliação é feita combinando localização e características de ecogenicidade.

BALAD não é uma doença única, mas é observada em um grupo heterogêneo de doenças que compartilham achados comuns de OCT.

Tumores, trauma e medicamentos

Tumores: Osteoma coroidal, linfoma coroidal, metástase coroidal

Trauma: Trauma contuso, ruptura coroidal, descolamento regmatogênico da retina 2)

Induzido por medicamentos: Dabrafenibe, trametinibe (inibidores de MEK/BRAF)

Imagem de Descolamento da Camada Bacilar
Imagem de Descolamento da Camada Bacilar
Ninan Jacob; Mudit Tyagi; Jay Chhablani; Raja Narayanan; Anup Kelgaonkar; Mukesh Jain. Retinal Pigment Epithelial Characteristics in Acute and Resolved Vogt-Koyanagi-Harada Disease. J Clin Med. 2023 Mar 19; 12(6):2368 Figure 3. PMCID: PMC10054856. License: CC BY.
Uma mulher de 26 anos com diagnóstico de doença de Vogt-Koyanagi-Harada aguda. O olho direito mostra líquido sub-retiniano, coroide espessada, epitélio pigmentar da retina (EPR) espessado e vacuolização do EPR (seta branca no quadrado branco no canto superior esquerdo) na tomografia de coerência óptica vertical (A). Após a resolução do líquido sub-retiniano, depósitos persistentes sobre o EPR podem ser observados (cabeça de seta) (B).
  • OCT (SD-OCT, SS-OCT): Essencial para o diagnóstico de BALAD. Identificar cavidade hiporrefletiva entre ELM e EZ 5).
  • Exame de fundo de olho e fotografia de fundo: Apresenta elevação foveal de bordas nítidas semelhante a SRF.
  • FAF: Hipoautofluorescência central com anel hiperautofluorescente ao redor 1).
  • FFA: Hiperfluorescência devido ao acúmulo de contraste na cavidade BALAD.
  • ICGA: Hipofluorescência precoce indicando hipoperfusão coroidal. Útil na avaliação da doença de Vogt-Koyanagi-Harada e doenças granulomatosas.
  • OCTA: Avaliação de doenças de base como nAMD, detecção de neovascularização coroidal 4),5).

Abaixo está a diferenciação entre BALAD e doenças com achados de OCT semelhantes.

DoençaLocalização da cavidadeRefletividade intracavitária
BALADEntre ELM e EZRefletividade moderada
SRF/SRDEntre EPR e retina neurosensorialRefletividade baixa (anecoica)
RetinosquiseDentro da retina neuralPresença de trave conjuntiva

Não existe tratamento específico para o BALAD em si. Tratar a doença de base leva ao desaparecimento do BALAD.

Mostra o curso do desaparecimento do BALAD para cada doença.

Doença de BaseTratamentoPrazo para Desaparecimento do BALAD
nAMDInjeção anti-VEGFDesaparece rapidamente
Doença de VKHMetilprednisolona IV2 a 5 dias
ToxoplasmaTMP-SMX + esteroideDentro de 1 semana
SLC tuberculosaATT + prednisonaCerca de 2 meses
CSCRFotocoagulação a laserCerca de 16 dias

A primeira escolha para nAMD é a injeção intravítrea de anti-VEGF, e o BALAD desaparece rapidamente após o tratamento1),4),5). Os principais medicamentos e doses são os seguintes5).

  • bevacizumab: 1,25 mg/0,05 mL
  • ranibizumab: 0,5 mg/0,05 mL
  • aflibercept: 2,0 mg/0,05 mL

Jung JJ et al. (2021) relataram 2 casos em que o BALAD desapareceu completamente após uma única injeção de bevacizumab5). O primeiro caso melhorou de 20/80 para 20/25, o segundo de 20/160 para 20/50. Também foi relatado um caso em que a CRT diminuiu de 929 μm para 310 μm após 6 doses de aflibercept, e a melhor acuidade visual corrigida melhorou de CF para 20/504).

Desai & Tyagi (2023) relataram que na coriorretinite toxoplásmica, TMP-SMX (160/800 mg, duas vezes ao dia, 2 meses) isoladamente manteve a inflamação e aumentou o BALAD, mas a adição de prednisolona 50 mg/dia fez o BALAD desaparecer em 1 semana 3).

Para SLC tuberculosa, foi relatado desaparecimento do BALAD em 2 meses com ATT (rifampicina + isoniazida + pirazinamida + etambutol) + prednisona 60 mg/dia 6).

Há relato de BALAD associado a CSCR devido a hipermetropia alta tratado com fotocoagulação a laser (532 nm, 250 μm, 50 mW, 200 ms) com desaparecimento do BALAD em 16 dias 7). Em CSCR com uso de esteroides, considere a suspensão dos esteroides 8).

Tratamento Cirúrgico para BALAD Associado a Descolamento Regmatogênico da Retina

Seção intitulada “Tratamento Cirúrgico para BALAD Associado a Descolamento Regmatogênico da Retina”

A escolha do procedimento cirúrgico para BALAD associado a descolamento regmatogênico da retina depende do subtipo 2).

  • Tipo teto foveal intacto: Boa recuperação funcional da visão com buckling escleral (melhor acuidade visual corrigida 20/200→20/25, espessura foveal 80→166 μm).
  • Tipo lamelar: Devido ao risco de progressão para FTMH após buckling escleral, recomenda-se vitrectomia + peeling de ILM + técnica de flap invertido.

Há relato de desaparecimento do BALAD em 3 semanas com injeção intravítrea de voriconazol 100 μg/0,05 mL combinada com antifúngico sistêmico 9).

Q O BALAD pode ser curado com tratamento?
A

O BALAD frequentemente desaparece com o tratamento da doença de base. Na nAMD, o BALAD desaparece com injeção anti-VEGF; em doenças inflamatórias, com esteroides ou antibióticos. No entanto, mesmo após o desaparecimento do BALAD, pode permanecer deficiência visual de longo prazo, como 77% dos casos de nAMD desenvolvem fibrose sub-retiniana em 4 anos 4).

Base Anatômica do Segmento Interno do Fotorreceptor

Seção intitulada “Base Anatômica do Segmento Interno do Fotorreceptor”

O segmento interno (IS) é funcionalmente dividido em duas zonas.

  • Zona Mioide (MZ): Contém aparelho de Golgi, ribossomos e retículo endoplasmático (RE). Estruturalmente menos robusta que ELM e EZ, e propensa a clivagem artificial em amostras de tecido 5),9).
  • Zona Elipsoide (EZ): Contém mitocôndrias densas, formando uma linha de alta refletividade na OCT.

A fragilidade estrutural da MZ é a base anatômica para a formação do BALAD.

Mehta et al. propuseram dois fatores para a formação do BALAD 5).

  1. Pressão hidrostática suficiente da coroide: A alta pressão de exsudação coroidal promove acúmulo de líquido intra-retiniano.
  2. Pontos fracos estruturais da MZ: A MZ entre ELM e EZ é o plano de clivagem mais frágil.

Hipótese de Neovascularização Macular Tipo 2 (nAMD)

Seção intitulada “Hipótese de Neovascularização Macular Tipo 2 (nAMD)”

O influxo rápido de líquido proteináceo através de defeitos no complexo RPE/membrana de Bruch eleva a ELM. A hemorragia sub-retiniana forma aderências de fibrina entre EZ e RPE, causando clivagem na MZ 5).

Espessamento coroidal é observado em 93,8% dos casos de BALAD 8). Na doença de Vogt-Koyanagi-Harada e epiteliopatia pigmentar aguda multifocal posterior, a isquemia coroidal é considerada indutora de BALAD.

Mecanismo de Formação de BALAD no Descolamento de Retina Regmatogênico

Seção intitulada “Mecanismo de Formação de BALAD no Descolamento de Retina Regmatogênico”

Acredita-se que forças tangenciais na mácula rompam o cone de células de Müller, causando descolamento da membrana limitante externa e clivagem na zona mioidica 2).

Govetto et al. (2023) propuseram a possibilidade de um “mecanismo de foveação” no qual cones saudáveis da parafóvea se movem centripetamente para reconstruir a fóvea durante o reparo de BALAD após descolamento regmatogênico 2). Como os cones pós-mitóticos não podem se replicar, essa hipótese sugere regeneração da fóvea por movimento, não por nova formação.

Q Por que a clivagem ocorre no mioidio do segmento interno do fotorreceptor?
A

A zona mioidica (MZ) não é estruturalmente tão forte quanto a membrana limitante externa ou a zona elipsoide, sendo um ponto fraco anatômico. Sabe-se que a separação artificial ocorre facilmente nesse local em espécimes histológicos 5),9). Quando há aumento da pressão hidrostática da coroide, ocorre clivagem nesse ponto fraco, formando BALAD.


7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)”

Flindris et al. (2025) relataram que BALAD associado a nAMD é um biomarcador que indica um fenótipo de doença agressivo 4). Olhos com nAMD e BALAD mostraram que 77% desenvolveram fibrose sub-retiniana em 4 anos. Isso sugere que BALAD não é apenas um achado de OCT, mas pode ser usado como indicador prognóstico.

A recuperação gradual da zona elipsoide e da zona de interdigitação é observada em mais da metade dos casos de BALAD 9). Como os cones pós-mitóticos não podem se replicar, o mecanismo de foveação mencionado (reconstrução da fóvea por movimento centrípeto) pode ser a chave para a recuperação 2).

Há relatos de ocorrência de neovascularização coroidal após o desaparecimento de BALAD associado à endoftalmite fúngica endógena 9), sugerindo que o BALAD pode formar um terreno para neovascularização coroidal através de danos às camadas externas da retina.

A correlação histopatológica precisa do BALAD ainda não foi estabelecida 1),4),5). Atualmente, a maioria são relatos de caso ou séries de casos pequenos, e são necessários grandes estudos prospectivos para elucidar a história natural e os fatores prognósticos do BALAD.


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  3. Desai A, Tyagi M. Bacillary layer detachment as an inflammatory biomarker in toxoplasmosis retinochoroiditis: serial evolution on optical coherence tomography. BMJ Case Rep. 2023;16:e256629.
  4. Flindris K, Gorgoli K, Koumpoulis I. A case series of bacillary layer detachment (BALAD) in neovascular age-related macular degeneration (nAMD): a novel optical coherence tomography (OCT) biomarker. Cureus. 2025;17(11):e96819.
  5. Jung JJ, Soh YQ, Yu DJG, et al. Bacillary layer detachment due to macular neovascularization. Retina. 2021;41(10):2106-2114.
  6. Socci da Costa D, Gomes e Silva A, Melichar A, et al. Bacillary layer detachment in serpiginous-like choroiditis of presumed intraocular tuberculosis: report of two cases. Am J Ophthalmol Case Rep. 2022;27:101653.
  7. Murillo SA, Medina SP, Romero RM, Murillo FH. Bacillary layer detachment in an atypical case of central serous chorioretinopathy associated with high hyperopia. Case Rep Ophthalmol. 2022;13:504-510.
  8. Fuganti RM, Casella AM, Roisman L, et al. Case series bacillary layer detachment associated with acute central serous chorioretinopathy in patients with COVID-19. Am J Ophthalmol Case Rep. 2022;28:101690.
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