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Retina e vítreo

Hipoplasia da fóvea

Hipoplasia foveal (FH) é uma anomalia congênita do desenvolvimento da retina na qual a fóvea não se desenvolve ou se forma de maneira incompleta. Foi descrita pela primeira vez no início do século XX em associação com nistagmo hereditário.

O desenvolvimento normal da fóvea começa na 12ª semana de gestação. Por volta da 25ª semana gestacional, a formação da depressão começa devido ao deslocamento centrífugo das camadas internas da retina, completando-se entre 15 e 45 meses após o nascimento 1, 2). Na FH, esse processo de formação da depressão é prejudicado, e as camadas internas da retina permanecem sobre a fóvea.

Epidemiologicamente, até 3% das crianças saudáveis apresentam achatamento foveal bilateral. Em um estudo multicêntrico com 907 pessoas, a causa genética mais comum foi o albinismo (67,5%), seguido pela mutação PAX6 (21,8%), mutação SLC38A8 (6,8%) e mutação FRMD7 (3,5%) 1).

As principais doenças associadas à FH são mostradas abaixo.

Q Qual a frequência da hipoplasia foveal?
A

Acredita-se que até 3% das crianças saudáveis tenham achatamento foveal bilateral. Entre as causas genéticas, o albinismo representa 67,5% e é o mais comum, seguido pela mutação PAX6 com 21,8% 1).

  • Baixa acuidade visual: geralmente em torno de 20/50 a 20/200 (0,4 a 0,1). Quanto maior o grau de Leicester, menor a acuidade visual 1).
  • Nistagmo: nistagmo pendular é típico. Pode apresentar componentes mistos horizontais e rotacionais 1). Há também casos que mostram nistagmo latente (piora com o fechamento de um olho).
  • Fotofobia (sensibilidade à luz): proeminente em casos com albinismo. Devido à dispersão da luz pela deficiência de pigmento da íris 1).

A oftalmoscopia revela perda da pigmentação foveal e do reflexo foveal. A zona avascular foveal (FAZ) e a persistência das camadas retinianas internas são avaliadas por OCT, FA e OCTA.

A classificação de gravidade com base nos achados de OCT é mostrada abaixo 1).

GrauCaracterísticas morfológicasAcuidade visual (LogMAR)
Grau 1Depressão plana + alongamento do segmento interno + espessamento da ONL0,41–0,65
Grau 2Desaparecimento da depressão + alongamento do segmento interno + espessamento da ONL0,60
Grau 3Desaparecimento da depressão, sem alongamento do segmento interno + espessamento da ONL0,74
Grau 4Desaparecimento da depressão, sem alongamento do segmento interno, sem espessamento da ONL1,01
AtípicoDepressão rasa + destruição do segmento interno0,93

Nos Graus 1–2, a especialização dos cones permanece em certa medida e a acuidade visual é relativamente boa. Nos Graus 3–4, a especialização dos cones é escassa e a acuidade visual torna-se ruim 1).

Os outros achados clínicos principais são mostrados abaixo.

  • OCT: Desaparecimento ou achatamento da fóvea. As camadas de células ganglionares (GCL) e nuclear interna (INL) permanecem sobre a fóvea 1, 2).
  • OCTA/FA: Desaparecimento ou redução da zona avascular foveal (FAZ) 2).
  • Transiluminação da íris: Em casos com albinismo, a transiluminação da íris periférica é confirmada 1).
  • Alterações difusas do EPR: Podem ser observadas em casos com rubéola congênita 2).
Q Qual é a relação entre o grau de OCT e a acuidade visual?
A

Na Classificação de Leicester, a acuidade visual diminui gradualmente do Grau 1 (LogMAR 0,41–0,65) para o Grau 4 (LogMAR 1,01) 1). Os Graus 1–2 têm especialização dos cones preservada e acuidade visual relativamente boa, enquanto os Graus 3–4 têm especialização dos cones escassa e tendem a ter acuidade visual ruim.

Albinismo 67,5%

Genes causadores: Dividido em OCA (autossômico recessivo) e OA (ligado ao X). São conhecidos 7 tipos de OCA1–7, com 6 genes responsáveis.

Mecanismo: A deficiência de pigmento macular devido ao distúrbio da síntese de melanina prejudica o desenvolvimento da fóvea. O gene OCA2 está localizado no cromossomo 15 q12-q13 1).

Mutação PAX6 21,8%

Padrão de herança: Autossômico dominante.

Fenótipo: O fenótipo mais comum é aniridia. PAX6 é um fator de transcrição chave para o desenvolvimento ocular e está envolvido na diferenciação geral da retina 1).

Outras Causas Genéticas

Mutações SLC38A8 (6,8%): Herança autossômica recessiva. Codifica um transportador de glutamina, necessário para o desenvolvimento da retina 1).

Mutações FRMD7 (3,5%): Ligadas ao cromossomo X. Associadas ao nistagmo infantil idiopático 1).

  • Prematuridade: O desenvolvimento anormal dos vasos sanguíneos da retina leva à redução da FAZ e compromete o desenvolvimento da fóvea.
  • Rubéola congênita: A infecção materna no primeiro trimestre se espalha para o feto. Além do dano direto pelo vírus, a isquemia mediada por inibição mitótica e dano endotelial vascular impede o desenvolvimento da fóvea 2).
Q A hipoplasia foveal pode ocorrer na rubéola congênita?
A

Sim, pode ocorrer. Acredita-se que a infecção por rubéola no primeiro trimestre da mãe se espalhe através da placenta para o sistema vascular fetal, causando alterações isquêmicas e inibição mitótica, impedindo o desenvolvimento da fóvea 2). Pode ser prevenida pela vacinação contra rubéola.

O diagnóstico de FH é feito por meio de uma combinação de exames. Abaixo está um resumo dos principais métodos de exame e achados.

Método de ExamePrincipais Achados
OftalmoscópioPigmentação da fóvea ou desaparecimento do reflexo
OCTDesaparecimento da depressão, preservação da camada retiniana interna (graduação)
FA / OCTADesaparecimento ou redução da FAZ
Eletrorretinograma / VEPAvaliação de anormalidades retinianas orgânicas
Teste genéticoIdentificação da causa de albinismo, PAX6, etc.

Os detalhes de cada exame são mostrados abaixo.

  • OCT: A gravidade da FH pode ser avaliada objetivamente usando a graduação de Leicester. A precisão da predição da acuidade visual é maior do que a transiluminação da íris ou a visibilidade da fóvea 1).
  • FA: Confirmação do desaparecimento ou redução da FAZ 2).
  • OCTA: Avaliação não invasiva da FAZ nos plexos capilares superficial e profundo.
  • Teste genético: Útil para identificar mutações de albinismo (OCA/OA), PAX6, SLC38A8, FRMD7 1). Essencial para diagnóstico etiológico e aconselhamento genético.
  • Eletrorretinograma (ERG) e VEP: Utilizado para avaliar anormalidades orgânicas associadas, como acromatopsia e hipoplasia do nervo óptico.

É importante diferenciar de doenças que apresentam nistagmo.

  • Nistagmo por déficit sensorial: Nistagmo associado a lesões orgânicas, incluindo FH.
  • Nistagmo congênito idiopático (CIN): Nistagmo congênito sem anormalidades orgânicas.
  • Spasmus nutans: Nistagmo transitório em lactentes com tremor de cabeça e inclinação da cabeça. Necessário diferenciar de neuroblastoma.

Atualmente não existe tratamento curativo para o FH em si. O tratamento visa maximizar a função visual e prevenir complicações secundárias.

  • Correção refrativa: Óculos para hipermetropia, miopia e astigmatismo são a base. Em casos de hipermetropia alta, é necessária correção agressiva (ex.: equivalente a lente esférica +6,50 D) 1).
  • Manejo da ambliopia: Se houver ambliopia monocular, considere oclusão (tampão no olho bom) ou colírio de atropina.
  • Cuidados com baixa visão: Use auxílios como lupas, óculos de baixa visão e software de ampliação de tela.
  • Cirurgia de catarata: A cirurgia é realizada em casos de catarata, mas o prognóstico visual pós-operatório é limitado pela gravidade do FH 2).
  • Aconselhamento genético e teste genético: Identificar o gene causador é importante também como preparação para terapia gênica futura 1).
Q Existe tratamento para a hipoplasia foveal?
A

Atualmente não há tratamento curativo. O tratamento concentra-se na correção refrativa, manejo da ambliopia e cuidados com baixa visão. A pesquisa em terapia gênica está avançando, e a identificação do gene causador (consulte a seção Diagnóstico e Métodos de Exame) pode ampliar as opções terapêuticas no futuro 1).

O desenvolvimento da fóvea começa na 12ª semana de gestação e é concluído entre 15 e 45 meses após o nascimento, passando por várias etapas 1, 2).

  1. Deslocamento centrífugo das camadas retinianas internas: A camada de células ganglionares (GCL) e a camada nuclear interna (INL) movem-se para fora do centro da fóvea.
  2. Migração centrípeta dos cones: Os cones na camada nuclear externa (ONL) acumulam-se em direção ao centro.
  3. Alongamento dos segmentos externos: Os segmentos externos dos cones alongam-se, aumentando a densidade e sensibilidade.
  4. Alargamento da depressão: As células de Müller tracionam as fibras de Henle verticalmente, e os astrócitos recuam lateralmente, alargando a depressão.

Na FH, um desses processos (deslocamento centrífugo, migração centrípeta ou alongamento dos segmentos externos) é prejudicado, resultando na persistência das camadas retinianas internas na fóvea.

Existe a hipótese “FAZ” de que a não formação da zona avascular foveal (FAZ) impede a formação da depressão 1). Se a FAZ não se formar, os astrócitos que induzem as células endoteliais vasculares continuam a cruzar a fóvea, inibindo a formação da depressão.

No entanto, na acromatopsia, há casos de FH com FAZ presente, sugerindo que a FAZ é necessária, mas não suficiente, para a formação da depressão 1).

No albinismo, o defeito na síntese de melanina causa deficiência de pigmento na mácula. Acredita-se que essa deficiência de pigmento impeça a indução normal do desenvolvimento da fóvea 1).

Na rubéola congênita, o vírus se espalha através da placenta para o sistema vascular fetal. Necrose vilosa, indução de apoptose, inibição mitótica e isquemia devido a dano endotelial vascular prejudicam complexamente o desenvolvimento da fóvea 2).

Viana et al. (2022) relataram um caso de FH (mulher de 52 anos) com histórico de rubéola congênita 2). O olho direito apresentava microftalmia e afacia com ausência de percepção de luz, o olho esquerdo era Leicester Grau 3, BCVA 20/63. Alterações difusas do EPR foram observadas, mas o eletrorretinograma estava dentro dos limites normais. Este caso não foi diagnosticado até a idade adulta, e é um relato novo que mostra a associação entre rubéola congênita e FH.


7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)”

Na FH associada ao albinismo, a terapia gênica para genes relacionados à OCA (TYR, OCA2, TYRP1, SLC45A2, etc.) está sendo estudada como uma opção futura. A identificação do gene causador por teste genético é um pré-requisito para isso 1).

Kavalaraki et al. (2023) relataram um caso de FH (menina de 8 anos, Grau 4) com histórico de albinismo tirosinase-positivo (OCA2), e identificaram uma mutação OCA2 (cromossomo 15 q12-q13) por teste genético 1). A acuidade visual era BCVA 0,4 no olho direito e 0,5 no esquerdo, com correção de hipermetropia de +6,50 DS e aconselhamento genético. A classificação por OCT mostrou melhor precisão preditiva da acuidade visual do que a transiluminação da íris e a visibilidade macular.

Significância Clínica da Classificação por OCT

Seção intitulada “Significância Clínica da Classificação por OCT”

A classificação de Leicester está se estabelecendo como um indicador objetivo para o prognóstico da acuidade visual na FH. Tem maior precisão preditiva da acuidade visual do que a avaliação convencional da transiluminação da íris e achados oftalmoscópicos, e espera-se sua aplicação na avaliação de efeitos terapêuticos e aconselhamento genético 1).

Casos que relatam rubéola congênita como causa de FH são raros, e há casos diagnosticados na idade adulta 2). Em regiões onde a rubéola continua endêmica, a rubéola deve ser considerada como causa de FH. A disseminação da vacinação contra a rubéola está diretamente ligada à prevenção primária desta doença.

Pesquisas estão sendo realizadas sobre a possibilidade de os cones mudarem de forma e aumentarem sua densidade, mesmo sem a formação da fóvea. Espera-se que a elucidação do mecanismo dessa plasticidade leve a estratégias de intervenção futuras.


  1. Kavalaraki A, Paraskevopoulos K, Kavalaraki M, et al. Foveal Hypoplasia in a Child With Tyrosinase-Positive Albinism. Cureus. 2023;15(9):e44558.
  2. Viana AR, Basto R, Correia Barbosa R, et al. Foveal Hypoplasia Related to Congenital Rubella. Cureus. 2022;14(11):e31766.
  3. Rodriguez-Martinez AC, Higgins BE, Tailor-Hamblin V, Malka S, Cheloni R, Collins AM, et al. Foveal Hypoplasia in CRB1-Related Retinopathies. Int J Mol Sci. 2023;24(18). PMID: 37762234.

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