A mucopolissacaridose (MPS) é um grupo de doenças causadas por deficiências genéticas de enzimas lisossômicas, resultando em degradação prejudicada dos glicosaminoglicanos (GAGs). Os GAGs não degradados acumulam-se nos lisossomos de todo o corpo, causando danos em múltiplos órgãos, incluindo olhos, esqueleto, coração e sistema nervoso central.
A prevalência ao nascimento no Japão é de aproximadamente 1 em 50.000 pessoas. Na Ásia, o tipo II (síndrome de Hunter) representa metade de todos os casos de MPS, e a prevalência ao nascimento do tipo II no Japão é de 0,84 por 100.000 meninos. 1) As prevalências de cada tipo são: tipo I (Hurler) 1 por 100.000 nascimentos, 5) tipo VII (síndrome de Sly) 0,01/100.000 na Europa e 0,027/100.000 nos EUA. 6)
A MPS difere em cada tipo quanto à enzima deficiente, tipo de GAG acumulado e padrão de herança. Um resumo de cada tipo é mostrado abaixo.
O MPS tipo I possui subtipos Hurler (início na infância, progressão rápida) e Scheie (início por volta dos 7 anos, progressão lenta). Apenas o tipo II é herdado de forma recessiva ligada ao X, sendo raro em mulheres. 3) Os sintomas sistêmicos incluem fácies de Gargoyle, deformidades esqueléticas, valvopatia cardíaca, hepatoesplenomegalia, hérnias e comprometimento do SNC.
QQuais são os tipos de mucopolissacaridose?
A
Existem os tipos I a VII (o tipo V está ausente), com diferentes enzimas deficientes e GAGs acumulados em cada tipo. A herança é recessiva ligada ao X apenas no tipo II; os demais são autossômicos recessivos. 3) No Japão, o tipo II (síndrome de Hunter) é o mais comum, representando metade de todos os casos de MPS. 1)
Frequência de aparecimento: Tipo I 80–100%, Tipo VI/VII (63%) são comuns. 6) Nos tipos II e III, geralmente leve ou ausente.
Morfologia: Tipo IH: opacidade difusa pontilhada cinzenta a aspecto de vidro fosco. Tipo IS: progressão da periferia para o centro.
Gravidade: Avaliada em graus 0 a 3. 7)No tipo VI de MPS, a espessura da córnea pode atingir até 1500 µm. Nos tipos I e VI, adultos podem necessitar de transplante de córnea.
Mecanismo: Proteoglicanos contendo DS (decorina, biglicano) mantêm o arranjo das fibras de colágeno, mas o acúmulo de DS causa inchaço dos queratócitos, rompendo o arranjo e levando à opacidade. 3)
Glaucoma
Tipo de apresentação: Mais comum nos tipos I e VI. Prevalência de 2,1 a 12,5%.
Mecanismo: Existem dois tipos: ângulo aberto (obstrução da via de drenagem por acúmulo de glicosaminoglicanos no trabeculado) e ângulo fechado. No tipo VI da mucopolissacaridose, também pode ocorrer glaucoma posterior devido à hidrocefalia.
Cuidados na medição: Devido à espessura corneana, o Icare (tonômetro de rebote) é útil. No tonômetro de aplanação, é necessário considerar o efeito da espessura corneana central (CCT).
Importância clínica: Importante como causa de glaucoma infantil.
Retinopatia
Prevalência: 42% (32 de 75 pacientes). 7)O caso mais jovem foi MPS I aos 2 anos, MPS II aos 6 anos, MPS VI aos 6 anos. 7)
Achados de imagem: Na FAF, pontos hiperautofluorescentes na fóvea e anel parafoveal; na SD-OCT, espessamento da membrana limitante externa (ELM) e perda de fotorreceptores. 7)A retinografia ultra-widefield (UWF) permite a detecção de casos adicionais. 7)
Cegueira noturna: observada em 15/32 pacientes (46,9%). 7)
Alterações da papila óptica
Evolução: transição de edema para atrofia. Nos tipos I e VI, edema de papila é observado em cerca de metade dos casos, e atrofia ocorre em 8 a 19%.
Mecanismo: envolvimento de glaucoma, acúmulo de glicosaminoglicanos, estrangulamento do nervo óptico e aumento da pressão intracraniana (PIC) associado à hidrocefalia.
Outros achados oculares: hipermetropia (mais de 90% nos tipos I e VI), exotropia (37% no tipo IH, 25% no tipo VI), espessamento escleral.
QEm quais tipos a opacidade da córnea é mais comum?
A
É mais comum nos tipos I, VI e VII, sendo observada em 80-100% dos casos do tipo I e em 63% do tipo VII. 6) Nos tipos II e III, a opacidade é geralmente leve ou ausente. O tipo de GAG acumulado (predomínio de DS ou HS) determina a diferença na especificidade do órgão, e a opacidade da córnea torna-se proeminente nos tipos I e VI, onde há predomínio de DS. 3)
A causa fundamental da MPS é uma deficiência genética de enzimas lisossomais, resultando em degradação e acúmulo prejudicados de GAG. A especificidade do tipo de achado ocular é determinada pelo tipo de GAG acumulado e pela diferença no nível de sulfatação. 3)
Razão DS/HS e especificidade de órgão: No tipo I, a razão DS/HS é >1 (predomínio de DS), resultando em sintomas corneanos e esqueléticos proeminentes. No tipo II, a razão DS/HS é <1 (predomínio de HS), resultando em comprometimento do SNC como principal característica e opacidade corneana leve. 3)
Padrão de herança: Apenas o tipo II é ligado ao X recessivo. Casos em mulheres são extremamente raros. 3) O tipo III possui 4 subtipos (A a D), todos decorrentes de deficiência de enzimas de degradação de HS. 2)
Riscos oftalmológicos: O acúmulo de GAG nos tecidos oculares (córnea, malha trabecular, matriz pericelular do EPR, esclera) leva ao aparecimento e progressão de múltiplos achados oculares ao longo do tempo, independentemente do tipo.
Detecção de distrofia de bastonetes e de cones-bastonetes. 16 pacientes diagnosticados apenas por eletrorretinografia7)
QComo a retinopatia é diagnosticada?
A
É necessária uma avaliação multimodal que inclua exame de fundo de olho (incluindo UWF), FAF, SD-OCT e eletrorretinograma. No relato de Noor et al. (2025), a retinopatia foi confirmada em 32 de 75 pacientes (42%), e quase metade deles foi diagnosticada apenas pelo eletrorretinograma. 7) É importante realizar o eletrorretinograma regularmente, mesmo na ausência de sintomas subjetivos.
MPS I: laronidase 0,5 mg/kg por via intravenosa uma vez por semana. 5)
MPS II: idursulfase / idursulfase beta 0,5 mg/kg por via intravenosa uma vez por semana. A melhora foi confirmada por até 8 anos. 1, 4) Anticorpos antidroga são produzidos em cerca de 50% dos pacientes dentro do primeiro ano de tratamento, e 21-35% tornam-se anticorpos neutralizantes. 1)
Problema da barreira hematoencefálica (BHE): A ERT não consegue atravessar a BHE, sendo seu efeito limitado no SNC e em órgãos cartilaginosos (ossos e olhos). 3, 4) Não é capaz de interromper a progressão da opacidade corneana.
Indicação: Casos de opacidade corneana grave que causam deficiência visual.
Técnica cirúrgica: A taxa de sucesso do transplante penetrante de córnea (PK) é de aproximadamente 94%. Quando o endotélio está preservado, o transplante lamelar profundo de córnea (DALK) também é uma opção.
Atenção: Se o tratamento sistêmico (HSCT/ERT) não foi realizado, há risco de re-deposição de GAG no enxerto.
Colírios (primeira linha) → laser → trabeculectomia (incluindo com mitomicina C) → fotocoagulação do corpo ciliar/cirurgia de tubo de drenagem, nessa ordem.
Retinopatia: Atualmente não há tratamento eficaz. O monitoramento regular é o principal.
Neuropatia óptica: Se associada à hidrocefalia, considerar VPS (derivação ventrículo-peritoneal) ou ETV (terceiro ventriculostomia endoscópica) ± CPC.
QQuais são os tipos e indicações do transplante de córnea?
A
Em casos de opacidade corneana grave que causa deficiência visual, realiza-se a ceratoplastia penetrante (PK), com taxa de sucesso de aproximadamente 94%. Se o endotélio corneano estiver preservado, a ceratoplastia lamelar profunda (DALK) é uma opção. Caso o tratamento sistêmico (HSCT ou ERT) não tenha sido realizado, há risco de reacúmulo de GAG no enxerto.
A degradação dos GAGs ocorre no lisossomo como uma reação enzimática em etapas. No tipo II (Hunter), a iduronato-2-sulfatase (IDS) é responsável pela primeira etapa, enquanto no tipo I (Hurler), a alfa-L-iduronidase (IDUA) atua na segunda etapa. 3) A deficiência de qualquer uma dessas enzimas leva ao acúmulo de GAGs a montante.
No DS predominante (MPS tipo I e VI), os sintomas corneanos e esqueléticos são proeminentes. No HS predominante (MPS tipo II), o comprometimento do SNC é o principal, e a opacidade da córnea é leve. Essa diferença decorre da composição variável de GAG em cada órgão. 3)
Opacidade da córnea: Os proteoglicanos contendo DS (decorina, biglicano) regulam o arranjo normal das fibras de colágeno. O acúmulo de DS causa inchaço dos ceratócitos, desorganizando o arranjo fibrilar e resultando em opacidade. 3)
Glaucoma: O acúmulo de GAG na malha trabecular aumenta a resistência ao fluxo no canal de Schlemm, elevando a pressão intraocular. O espessamento escleral e o aumento da PIC devido à hidrocefalia também contribuem secundariamente para a elevação da PIO.
Retinopatia: O acúmulo de GAG na matriz entre o EPR (epitélio pigmentar da retina) e os fotorreceptores prejudica a função dos fotorreceptores. 7)
Neuropatia óptica: O estrangulamento do nervo óptico devido à espessamento escleral e o aumento da PIC associado à hidrocefalia causam compressão e comprometimento do fluxo sanguíneo no nervo óptico.
7. Pesquisas recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)
A TRE administrada por via intravenosa não consegue atravessar a barreira hematoencefálica, portanto, seu efeito nos distúrbios do SNC tem sido um desafio. 3, 4) Várias abordagens estão sendo desenvolvidas para resolver esse problema.
JR141 (pabinafusp alfa): Proteína de fusão com anticorpo anti-receptor de transferrina que atravessa a BBB para suprir a atividade da iduronato-2-sulfatase no cérebro. Aprovado no Japão para MPS II (síndrome de Hunter), com redução significativa de HS no LCR demonstrada. 4)
AGT-182 · DNL310: ERT de próxima geração com mecanismo semelhante de passagem pela BBB. Atualmente em desenvolvimento. 4)
Horgan e colaboradores relataram um estudo de ERT intratecal (IT-ERT) para MPS II. Os GAGs no LCR diminuíram 80-90%, mas o desfecho primário de melhora cognitiva não foi alcançado. 4)
Alyazidi et al. revisaram a SRT com genisteína para MPS III (síndrome de Sanfilippo) e relataram que os ensaios clínicos em humanos não mostraram melhora na função neurocognitiva. 2)
Na terapia com chaperona farmacológica (chaperona molecular), a glucosamina demonstrou restaurar parcialmente a atividade da HGSNAT (enzima MPS III tipo C), mas ainda não foi aplicada clinicamente. 2)
Terapia gênica e terapia com células-tronco gênicas
Noor et al. (2025) indicaram que a terapia genética para a retinopatia causada pelo acúmulo de GAG pode contribuir para a prevenção e estabilização da degeneração dos fotorreceptores. Atualmente, trata-se de um conhecimento em fase pré-clínica, mas a importância da intervenção precoce é enfatizada. 7)
QExiste ERT que atravessa a barreira hematoencefálica?
A
O JR141 (pabinafusp alfa) para MPS II (síndrome de Hunter) foi aprovado no Japão. 4) A fusão com anticorpo anti-receptor de transferrina permite atravessar a barreira hematoencefálica, reduzindo significativamente o sulfato de heparano (HS) no LCR. Agentes de próxima geração como AGT-182 e DNL310 estão em desenvolvimento.
Chan MY, Lee JH, Choung HK, et al. Long-term experience with idursulfase beta (Hunterase) in two adolescent patients with MPS II. Mol Genet Metab Rep. 2023;36:100991.
Alyazidi AS, Alharthi SK, Almohammadi MA, et al. Current Concepts in the Management of Sanfilippo Syndrome (MPS III). Cureus. 2024;16(4):e58023.
Hampe CS, Eisengart JB, Lund TC, et al. Differences in MPS I and MPS II Disease Manifestations. Int J Mol Sci. 2021;22:7888.
Horgan C, Khan SA, Rhatigan E, et al. Current and Future Treatment of MPS Type II. Int J Mol Sci. 2022;23:4854.
Pillai NR, DeBrosse SD, McNutt M, et al. Early Neonatal Cardiac Phenotype in Hurler Syndrome. Genes. 2022;13:1293.
Oldham A, Harmatz P, Haslett P, et al. MPS VII - Extending the classical phenotype. Mol Genet Metab Rep. 2022;33:100922.
Noor M, Nightingale S, Ghosh A, et al. Retinopathy in Mucopolysaccharidoses. Ophthalmology. 2025;132:461-475.
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