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Neuro-oftalmologia

Achados Neuroftalmológicos em Adultos após Leucoencefalomalácia Periventricular na Infância

1. Qual é o quadro clínico neuroftalmológico em adultos após leucomalácia periventricular na infância?

Seção intitulada “1. Qual é o quadro clínico neuroftalmológico em adultos após leucomalácia periventricular na infância?”

A leucomalácia periventricular (LPV) é uma doença caracterizada por lesão isquêmica da substância branca adjacente aos ventrículos laterais do cérebro. Ocorre principalmente devido a eventos hipóxico-isquêmicos no terceiro trimestre da gestação ou no período perinatal.

  • Epidemiologia: A incidência de LPV em prematuros é estimada em 8-22%. A incidência da forma cística mais grave (LPV cística) é de cerca de 5%.
  • Significância clínica: A LPV envolvendo as radiações ópticas é uma das causas mais comuns de deficiência visual em pacientes com histórico de prematuridade. Embora os achados na infância sejam amplamente conhecidos pelos oftalmologistas pediátricos, existem casos que se apresentam ao oftalmologista pela primeira vez na idade adulta com achados semelhantes a estrabismo ou neuropatia óptica.

Uma das características dos achados oftalmológicos associados à PVL é o escavação do nervo óptico pseudoglaucomatosa (pseudoglaucomatous nerve cupping), com risco de diagnóstico errôneo de glaucoma de pressão normal. Com o avanço dos cuidados perinatais, a taxa de sobrevivência de prematuros aumentou, e espera-se que a prevalência de PVL aumente ainda mais no futuro.

Q A PVL pode ocorrer na idade adulta?
A

A PVL em si é uma lesão perinatal e não surge novamente na idade adulta. No entanto, pode não ser diagnosticada na infância e ser descoberta apenas quando o paciente adulto consulta um oftalmologista devido à diminuição da visão ou defeitos de campo visual. Consulte a seção “Diagnóstico e Métodos de Exame” para detalhes.

A gravidade e a extensão do quadro clínico oftalmológico da PVL dependem do grau de lesão cerebral.

  • Redução da acuidade visual: Pode ser unilateral ou bilateral. O grau varia conforme o local da lesão.
  • Defeito de campo visual: Frequentemente um defeito de campo inferior. Pode também apresentar hemianopsia homônima que respeita o meridiano horizontal.
  • Diplopia: Pode ocorrer quando acompanhada de esotropia.
  • Distúrbio da atenção visual: Pode manifestar-se como dificuldade no reconhecimento de objetos, detecção de movimento e percepção de profundidade.

Achados Clínicos (achados confirmados pelo médico no exame)

Seção intitulada “Achados Clínicos (achados confirmados pelo médico no exame)”

O quadro clínico da PVL varia conforme o local da lesão. As características dos achados de acordo com o nível de comprometimento da via óptica são mostradas abaixo.

Lesão pré-quiasmática

Redução da acuidade visual e defeito de campo visual ipsilateral: Correspondente ao lado da lesão.

Anormalidade na visão de cores: Acompanhada de discromatopsia.

Defeito pupilar aferente relativo (RAPD): Aparece ipsilateralmente em casos unilaterais ou assimétricos.

Atrofia do nervo óptico: Unilateral ou bilateral.

Pós-quiasmático e pré-geniculado

Hemianopsia homônima contralateral: Devido a lesão do trato óptico.

RAPD contralateral: Sinal característico de lesão do trato óptico.

Atrofia óptica em faixa (em gravata borboleta): Aparece no olho contralateral. Reflete dano às fibras cruzadas.

Lesões pós-geniculadas

Atrofia óptica por degeneração transsináptica: Geralmente não observada em lesões pós-geniculadas de início adulto, mas em lesões perinatais como PVL, ocorre atrofia óptica secundária via degeneração transsináptica.

Escavação pseudo-glaucomatosa: Disco óptico de tamanho normal com escavação grande e profunda.

Um achado característico em pacientes adultos com PVL é a importância da diferenciação do glaucoma de pressão normal.

CaracterísticaGlaucomaPVL
Escavação do disco ópticoAlargamento vertical da escavaçãoEscavação horizontal (em faixa)
Defeito de campo visualDefeito em degrau nasal é mais comumDefeito de campo visual predominante inferior
Q Qual a diferença entre o defeito de campo visual na PVL e no glaucoma de pressão normal?
A

Na PVL, o defeito de campo visual bilateral predominante inferior que respeita o meridiano horizontal é característico, enquanto no glaucoma de pressão normal, defeitos de campo visual do tipo fibra nervosa, como escotoma arqueado e defeito em degrau nasal, são mais comuns. O padrão de escavação do disco óptico também difere, com a PVL apresentando escavação horizontal (em faixa).

A PVL ocorre devido à imaturidade do suprimento vascular periventricular no feto. O desenvolvimento dos vasos periventriculares é incompleto até o final da gestação, tornando-os vulneráveis a eventos adversos nesse período.

Os principais fatores de risco são os seguintes:

  • Hipóxia perinatal: O fator de risco mais forte e direto.
  • Infecção intrauterina: A resposta inflamatória de citocinas à infecção bacteriana danifica os precursores de oligodendrócitos.
  • Corioamnionite: A infecção materna afeta a substância branca cerebral do feto.
  • Ruptura prematura de membranas: Contribui tanto pelo aumento do risco de infecção quanto pela indução do parto prematuro.
  • Desregulação do fluxo sanguíneo cerebral: Devido à instabilidade hemodinâmica característica de prematuros.
  • Hipoglicemia e convulsões neonatais: Como complicações perinatais podem agravar a lesão.

Para avaliar defeitos de campo visual e escavação do disco óptico em pacientes adultos com histórico de parto prematuro, é essencial uma anamnese perinatal detalhada. O primeiro passo para suspeitar de PVL e chegar ao diagnóstico é a revisão da história clínica.

Realizar um exame neuro-oftalmológico completo.

  • Perimetria automatizada (automated perimetry): Usada para detectar hemianopsia homônima e defeitos de campo visual de predomínio inferior.
  • Teste de visão de cores: Lesões pré-quiasmáticas são acompanhadas de anormalidades na visão de cores.
  • Exame pupilar: Verificar a presença de RAPD. Útil para localização da lesão.
  • Exame de fundo de olho sob midríase: Avaliar o padrão de escavação do disco óptico e a presença de atrofia em faixa.

Este é um exame importante para diferenciar a escavação pseudo-glaucomatosa do glaucoma verdadeiro na PVL 1).

CaracterísticaGlaucomaPVL Pseudo-glaucomatosa
Afinamento da RNFLForma de ampulheta (predomínio superior-inferior)Difuso ou predomínio nasal
feixe papilomacularpreservado até estágios finaispode mostrar afinamento
mudanças ao longo do tempoprogressivonão progressivo e estável

A avaliação seriada da OCT é particularmente útil no diagnóstico diferencial; na PVL, a espessura da camada de fibras nervosas da retina permanece estável a longo prazo, sendo esta a diferença crucial em relação ao glaucoma.

  • RM: É o exame mais importante para o diagnóstico definitivo de PVL1). Os achados característicos incluem aumento do sinal periventricular em T2, redução do volume da substância branca em T1, dilatação ex-vácuo do trígono, corno occipital e corno temporal dos ventrículos laterais, e contorno ventricular ondulado.
  • TC: Mostra áreas hipodensas na substância branca periventricular, sulcos cerebrais profundos e proeminentes com dilatação ventricular, e formato irregular dos ventrículos laterais.
  • RM funcional (fMRI): A estimulação visual pode ser usada para avaliar a extensão da PVL com mais detalhes.
  • Potencial evocado visual por flash (flash VEP): É utilizado para estimar a acuidade visual em casos onde a avaliação da visão é difícil.

Os achados de neuroimagem na PVL correspondem ao momento e à gravidade da lesão. Na fase inicial, observa-se necrose da substância branca periventricular; na fase subaguda, pode ocorrer formação de cistos intraparenquimatosos. Na fase tardia, ocorre perda parenquimatosa e dilatação ventricular. As características topográficas anatômicas da lesão geralmente se correlacionam com o tipo e a gravidade do defeito de campo visual.

El Beltagi et al. (2022) relataram o caso de um homem de 21 anos com atrofia do nervo óptico por PVL que foi diagnosticado erroneamente como glaucoma de pressão normal por 5 anos1). A acuidade visual corrigida era 6/36 no olho direito e 6/12 no esquerdo, com pressão intraocular normal de 14 mmHg. A RM confirmou redução do volume da substância branca periventricular com alterações glióticas predominantes no lobo occipital, sendo diagnosticado PVL envolvendo a radiação óptica. Após a suspensão do tratamento para glaucoma, não houve progressão do defeito de campo visual durante aproximadamente 2 anos de seguimento.

Q Por que a PVL é frequentemente confundida com glaucoma de pressão normal?
A

A degeneração transsináptica causada pela PVL leva a uma escavação grande em um disco óptico de tamanho normal e defeitos de campo visual, assemelhando-se muito ao glaucoma de pressão normal, especialmente porque a pressão intraocular está dentro da faixa normal. Idade jovem e curso estável apesar do tratamento são pistas para o diagnóstico diferencial. Uma história perinatal detalhada é essencial.

Não existe tratamento curativo para os distúrbios visuais causados pela PVL. O manejo baseia-se em uma abordagem abrangente e multidisciplinar.

  • Manejo oftalmológico: Acompanhamento contínuo com exame de campo visual e OCT para diferenciar a atrofia óptica não progressiva relacionada à PVL do glaucoma que pode surgir recentemente.
  • Correção refrativa: Pacientes com PVL frequentemente apresentam astigmatismo e hipermetropia, necessitando de ajustes periódicos na correção refrativa.
  • Reabilitação: Recomenda-se reabilitação abrangente incluindo terapia da fala, fisioterapia e terapia cognitiva.

A intervenção cirúrgica geralmente não é justificada para os achados oftalmológicos da PVL. Se houver estrabismo, a cirurgia de estrabismo pode ser realizada na infância.

A fisiopatologia da PVL é compreendida em duas etapas: lesão isquêmica da substância branca periventricular, seguida por degeneração transsináptica.

Lesão Primária: Isquemia da Substância Branca Periventricular

Seção intitulada “Lesão Primária: Isquemia da Substância Branca Periventricular”

A região periventricular fetal corresponde a uma zona de fronteira vascular, e o suprimento vascular permanece imaturo até o final da gestação. Se ocorrer um evento de hipóxia-isquemia durante esse período, ocorrem os seguintes distúrbios no nível celular.

  • Excitotoxicidade: A hipóxia-isquemia leva à captação insuficiente de glutamato por neurônios e astrócitos, causando dano neuronal devido ao excesso de glutamato.
  • Lesão de reperfusão: Com a reperfusão do tecido isquêmico, ocorrem dano vascular, aumento da produção de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio e resposta inflamatória anormal.
  • Dano aos precursores de oligodendrócitos: Citocinas inflamatórias e toxinas decorrentes de infecção bacteriana danificam seletivamente os precursores de oligodendrócitos responsáveis pela mielinização.

Esses mecanismos levam à morte celular e ao afinamento da substância branca periventricular. A PVL ocorre preferencialmente na substância branca periventricular profunda ao redor do trígono, onde a mielinização ativa está em andamento.

Lesão secundária: degeneração transsináptica e atrofia do nervo óptico

Seção intitulada “Lesão secundária: degeneração transsináptica e atrofia do nervo óptico”

A radiação óptica origina-se no corpo geniculado lateral e corre adjacente ao ventrículo lateral, tornando-se suscetível a danos por PVL. A ruptura axonal da radiação óptica causa degeneração transsináptica, levando à atrofia retrógrada das células ganglionares da retina além do corpo geniculado lateral.

As alterações morfológicas do nervo óptico diferem conforme o momento da lesão.

  • Lesão precoce: A perda axonal em um período de alta plasticidade do canal escleral resulta em redução do disco óptico e escavação pequena (achado semelhante à hipoplasia do nervo óptico) 1).
  • Lesão tardia: A perda de axônios das células ganglionares da retina por degeneração transsináptica após o estabelecimento do canal escleral causa afinamento da borda neurorretiniana e escavação grande em um disco de tamanho normal, conferindo aparência semelhante ao glaucoma de pressão normal 1).

Como o corpo geniculado lateral é organizado topograficamente anatômica e funcionalmente, os déficits funcionais em pacientes com PVL dependem fortemente do local da lesão. Quando há envolvimento do córtex visual associativo extraestriado, podem ocorrer também distúrbios de reconhecimento de objetos, detecção de movimento e atenção visual.

A importância da OCT nas doenças da via óptica é que a medição da espessura da camada de fibras nervosas da retina peripapilar (cpRNFL) permite avaliação indireta de todas as células ganglionares da retina, e a medição do complexo de células ganglionares da mácula (GCC) permite detecção mais precoce de danos. Há relatos de anormalidades na OCT mesmo em lesões da via óptica posteriores ao corpo geniculado lateral, apoiando o conceito de degeneração transsináptica na PVL.

Q O que é o fenômeno de degeneração transsináptica?
A

Degeneração transsináptica (transsynaptic degeneration) é um fenômeno no qual, quando uma parte do circuito neural é danificada, os neurônios a montante ou a jusante conectados por sinapses também sofrem atrofia e degeneração secundárias. Na PVL, o dano à radiação óptica se estende retrogradamente através do corpo geniculado lateral até as células ganglionares da retina, causando atrofia do nervo óptico.


7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)”

A terapia de hipotermia está sendo estudada como tratamento neuroprotetor para lesão cerebral hipóxico-isquêmica perinatal. O resfriamento corporal total do recém-nascido é sugerido para inibir a progressão do dano cerebral, mas as evidências específicas para PVL são limitadas.

  • Imagem por Tensor de Difusão (DTI): Técnica que permite avaliação quantitativa da integridade das fibras brancas. Uma redução na anisotropia fracionada (FA) foi relatada no fascículo longitudinal inferior em pacientes com deficiência visual cerebral, sugerindo associação com comprometimento do reconhecimento de objetos.
  • Imagem de Difusão de Alta Resolução Angular (HARDI): Pode visualizar fibras cruzadas com maior resolução que a DTI, e uma redução nas fibras brancas do fascículo longitudinal inferior, fascículo fronto-occipital inferior e fascículo longitudinal superior foi relatada em pacientes com PVL. O dano a esses tratos brancos se correlaciona com distúrbios do processamento visual nas vias dorsal (percepção espacial) e ventral (reconhecimento de objetos).

A imagem por difusão é esperada como uma técnica que permite uma avaliação mais detalhada da relação entre estrutura e função, mas sua aplicação clínica requer mais pesquisas.


  1. El Beltagi AH, Barakat N, Aker L, et al. Optic cupping secondary to periventricular leukomalacia: A potential mimic for normal pressure glaucoma. Radiol Case Rep. 2022;17(11):4264-4267.
  2. Pereira S, Vieira B, Maio T, Moreira J, Sampaio F. Susac’s Syndrome: An Updated Review. Neuroophthalmology. 2020;44(6):355-360. PMID: 33408428.
  3. Tan A, Fraser C, Khoo P, Watson S, Ooi K. Statins in Neuro-ophthalmology. Neuroophthalmology. 2021;45(4):219-237. PMID: 34366510.

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