A Retinosquise Foveomacular Idiopática Não Hereditária Estrelada (Stellate Nonhereditary Idiopathic Foveomacular Retinoschisis; SNIFR) é um conceito de doença relativamente novo, relatado pela primeira vez por Ober et al. em 2014. 7)
Como o nome indica, é uma doença de diagnóstico de exclusão com as seguintes características:
Estrelada (Stellate): Forma uma cavidade cística multilocular estrelada na fóvea na OCT
Não hereditária (Nonhereditary): Sem história familiar e sem mutação no gene RS1
Idiopática (Idiopathic): Diagnosticada após exclusão de causas conhecidas como miopia, trauma ou anomalias do nervo óptico
Foveomacular (Foveomacular): A lesão é limitada à fóvea
Epidemiologicamente, ocorre mais frequentemente em mulheres na faixa dos 60-70 anos 1, 2). Geralmente bilateral e pode apresentar início assíncrono (diferença no tempo de início entre os olhos) 2).
QComo o SNIFR é diagnosticado?
A
Não é uma doença definida por critérios diagnósticos específicos, mas sim uma doença de diagnóstico de exclusão, diagnosticada após excluir tração miópica, fosseta do nervo óptico, CXLRS e retinosquise traumática. A alteração cística estrelada na fóvea à OCT e a negatividade do gene RS1 são centrais para o diagnóstico. Veja detalhes na seção Diagnóstico e Métodos de Exame.
Na maioria dos casos é assintomático, sendo frequentemente descoberto incidentalmente durante a investigação de outras doenças ou exames de rotina1, 2, 3).
A OCT é o exame mais importante no diagnóstico desta doença1, 2, 3, 4).
Separação cística estrelada na fóvea: formação de cavidades hiporrefletivas multiloculadas na camada nuclear externa (ONL), camada nuclear interna (INL) e camada de fibras de Henle (HFL)
Pilares teciduais verticais: pontes teciduais (pilares) dentro das cavidades císticas, causando o padrão estrelado
Envolvimento de toda a espessura retiniana: a separação cística pode se estender das camadas externas para as internas da retina
Presença de VMA: descolamento vítreo posterior parcial (PVD) é observado em 86% dos casos2). Casos de regressão da lesão após PVD completo foram relatados2, 4)
Na SNIFR, a estrutura da rede capilar é basicamente preservada, sem CNV ou aneurismas capilares.
A avaliação da estrutura vascular auxilia no diagnóstico diferencial com CXLRS (retinosquise congênita ligada ao X) 3).
OCT
Espaço cístico foveal: Espaços hiporrefletivos estrelados ou multiloculados formados na HFL, ONL e INL.
Pontes teciduais (pilares): Pontes verticais dentro dos espaços císticos. Causa do padrão estrelado.
DVP parcial (VMA): Presente em 86%. Aderência vitreomacular residual 2).
FA
Sem vazamento de fluoresceína: Ponto de diferenciação do edema macular cístico (EMC). Na angiografia fluoresceínica, geralmente não há vazamento de fluoresceína.
OCTA
Estrutura vascular normal: Sem CNV ou aneurismas capilares 3).
Auxílio na diferenciação de CXLRS: A avaliação vascular por OCTA ajuda a diferenciar da retinosquise congênita ligada ao X 3).
No exame de eletrorretinografia (ERG), o ERG multifocal (mfERG) mostra redução da amplitude na região foveal 5). Além disso, no ERG de campo total, foi relatada redução da onda b 5, 6). No entanto, as anormalidades no ERG são frequentemente leves, e sua gravidade pode diferir da redução acentuada da onda b observada na CXLRS.
QPor que não há vazamento de fluoresceína na FA?
A
As cavidades cistoides na SNIFR são devidas ao aumento da permeabilidade vascular (edema macular cistoide), e não à separação do próprio tecido retiniano e formação de espaços. Portanto, não há extravasamento de fluoresceína na angiografia fluoresceínica, e esse achado é um importante ponto de diferenciação do edema macular cistoide.
A causa estabelecida da SNIFR é desconhecida, e fatores de risco específicos também não são claros. As hipóteses etiológicas atualmente propostas são as seguintes:
Hipótese de tração vitreomacular: A tração vítrea persistente na mácula causa separação da camada de fibras de Henle (HFL) ou do tecido retiniano 2, 4). Isso é apoiado pela presença de adesão vitreomacular (VMA) em muitos casos e pela regressão da lesão após a liberação da VMA.
Hipótese de fragilidade da camada de fibras de Henle (HFL): A HFL, uma estrutura anatômica única na fóvea, é vulnerável à separação devido a certos estímulos mecânicos ou degenerativos 1, 4).
Hipótese de disfunção das células de Müller: A disfunção das células de Müller, que regulam o edema e o acúmulo de fluido intraretiniano, leva à separação do tecido e à formação de cistos 4).
O fato de a SNIFR ser mais comum em mulheres idosas na faixa dos 60-70 anos sugere uma possível associação com o processo de descolamento posterior do vítreo (PVD) relacionado à idade 1, 2).
A OCT, que pode visualizar as alterações císticas estreladas na fóvea com alta resolução, é o núcleo do diagnóstico 1, 2, 3, 4). Vários modos de OCT são utilizados para avaliar a extensão, profundidade e estrutura da cavidade de separação.
Essencial para diferenciar da retinosquise congênita ligada ao X (CXLRS). Na SNIFR, as mutações no gene RS1 são negativas 2, 3, 6). Em pacientes do sexo masculino, este teste deve ser sempre realizado para excluir CXLRS.
Em casos assintomáticos ou com boa acuidade visual, a observação periódica com OCT é a política básica. A existência de relatos de regressão espontânea também é uma base para evitar intervenção terapêutica precipitada2, 4).
Os inibidores da anidrase carbônica (IAC), às vezes usados para doenças maculares císticas, têm baixa eficácia na SNIFR.
Tanto a administração sistêmica (acetazolamida oral) quanto a tópica (colírio de dorzolamida) são relatadas como ineficazes ou insuficientemente eficazes para SNIFR1, 3)
Há relatos de que não houve melhora em casos tratados com CAI tópico (dorzolamida)1)
Observa-se regressão espontânea (desaparecimento ou redução da lesão no curso natural) em uma certa proporção de casos2, 4).
Machado Nogueira et al. (2021) relataram um caso em que a lesão de SNIFR regrediu após a liberação da tração vitreomacular (VMA)4). Essa observação apoia a possibilidade de que a VMA esteja envolvida no desenvolvimento e manutenção da SNIFR.
A cirurgia de catarata pode ser realizada com segurança em casos de SNIFR com catarata concomitante, e o uso de lentes intraoculares multifocais foi relatado2, 6). Não há evidências de que a cirurgia de catarata agrave a SNIFR, e a cirurgia pode ser considerada em casos com catarata onde se espera melhora da visão.
QOs inibidores da anidrase carbônica não são eficazes?
A
A eficácia dos CAI na SNIFR é atualmente considerada baixa1, 3). Acredita-se que isso ocorra porque a fisiopatologia é diferente do edema macular cístico, onde o acúmulo de líquido não é devido ao aumento da permeabilidade vascular. Como existem casos de regressão espontânea, a observação é prioritária.
Em condições de descolamento posterior do vítreo incompleto, a tração vitreomacular (VMA) persiste na área macular. Acredita-se que essa tração mecânica desencadeie a seguinte cascata4).
A VMA causa estimulação mecânica tangencial e vertical contínua na mácula
As células de Müller (células gliais responsáveis pela homeostase hídrica e iônica da retina) na fóvea tornam-se disfuncionais
A regulação do fluido extracelular pelas células de Müller é interrompida, levando ao acúmulo de líquido dentro da retina
Ocorre separação das camadas retinianas e formação de cistos, principalmente na camada de fibras de Henle (HFL)4)
Vulnerabilidade Anatômica da Camada de Fibras de Henle (HFL)
A HFL é um tecido único na fóvea, onde os axônios dos fotorreceptores correm obliquamente a partir da camada granular externa. Essa estrutura oblíqua é vulnerável ao estresse mecânico e acredita-se ser um ponto de partida para a formação de cavidades de separação1, 4).
Machado Nogueira et al. (2021) relataram um caso em que as alterações císticas semelhantes a SNIFR regrediram após a liberação da VMA, sugerindo que a disfunção das células de Müller mediada pela VMA pode ser a principal patogênese da SNIFR4). De acordo com essa hipótese, a liberação da VMA e o desaparecimento da tração mecânica restauram a função das células de Müller, permitindo a reabsorção de líquido e o reparo tecidual.
7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)
Bayram-Suverza (2025) relatou que a SNIFR pode ocorrer de forma assíncrona em ambos os olhos, e argumentou que o acompanhamento regular com OCT do olho contralateral é necessário após o diagnóstico de um olho2). Essa descoberta aprofunda a compreensão da história natural da SNIFR e contribui para o estabelecimento de protocolos de exame.
A existência de casos em que a SNIFR regride espontaneamente sem tratamento é uma pista importante para a compreensão da fisiopatologia4). A associação com a liberação da VMA foi sugerida, e espera-se que estudos verifiquem a eficácia de meios para confirmar e controlar o envolvimento da VMA (como liquefação vítrea farmacológica ou liberação da tração vítrea).
Utilização de OCTA e Novas Tecnologias de Imagem Diagnóstica
Hassanpoor (2025) relatou que a imagem multimodal incluindo OCTA ajuda na diferenciação entre lesões vasculares e CXLRS 3). Espera-se que a análise de imagem multimodal incluindo OCTA contribua para a elucidação da fisiopatologia do SNIFR e melhoria da precisão do diagnóstico diferencial.
QUma terapia eficaz será desenvolvida no futuro?
A
Atualmente, devido à existência de casos de regressão espontânea, as indicações para tratamento ativo são limitadas, mas se a associação com VMA se tornar clara, a terapia de liberação de tração vítrea minimamente invasiva (como ocriplasmina) pode se tornar uma opção viável. Além disso, com o avanço do conceito da doença, espera-se a realização de estudos prospectivos por meio do acúmulo de casos 2, 4).
Perente I, et al. Stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis: bilateral non-myopic presentation and failure of dorzolamide. 2023.
Bayram-Suverza M, Ramírez-Estudillo A. Spontaneous Resolution and Asynchronous Onset of Stellate Nonhereditary Idiopathic Foveomacular Retinoschisis in the Contralateral Eye. Journal of vitreoretinal diseases. 2025;9(3):372-376. doi:10.1177/24741264241309681. PMID:39742142; PMCID:PMC11683826.
Hassanpoor N, Tahmasebi A, Aminsobhani E, Niyousha M. A case of bilateral stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis with 14-month follow-up: clinical features, OCT findings and treatment outcome. BMC Ophthalmol. 2025;25:282. doi:10.1186/s12886-025-04116-6.
Thiago Machado Nogueira, Daniel de Souza Costa, Jordan Isenberg, Flavio A. Rezende. Stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis resolution after vitreomacular adhesion release. American Journal of Ophthalmology Case Reports. 2021;23:101153. doi:10.1016/j.ajoc.2021.101153.
Yadav D, Dhoble P, Sonawane N, Ramesh S. Multimodal imaging in a case of stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis. Indian J Ophthalmol. 2022;70(7):2703-2705. doi:10.4103/ijo.IJO_2803_21.
Van der Auwera S, Kallay O. Stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis: cataract surgery. Case Rep Ophthalmol Med. 2022;2022:7404138. doi:10.1155/2022/7404138.
Ober MD, Freund KB, Shah M, Ahmed S, Zacks DN, Gao H, et al. Stellate nonhereditary idiopathic foveomacular retinoschisis. Ophthalmology. 2014;121(7):1406-1413. PMID: 24661864. doi:10.1016/j.ophtha.2014.02.002.
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