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Neuro-oftalmologia

Sintomas oculares da osteopetrose

1. O que são os sintomas oculares da osteopetrose?

Seção intitulada “1. O que são os sintomas oculares da osteopetrose?”

A osteopetrose é um grupo de doenças ósseas metabólicas hereditárias caracterizadas por esclerose óssea difusa devido a defeitos na formação e função dos osteoclastos. Foi descrita pela primeira vez em 1904 pelo radiologista alemão Albers-Schönberg, sendo inicialmente chamada de “doença do osso de mármore”. Em 1926, foi denominada “osteopetrose”. Os sintomas oculares decorrem principalmente do crescimento excessivo dos ossos do crânio e da órbita.

  • Tipo autossômico dominante (ADO): o mais comum. Frequência de 1 em 20.000 recém-nascidos.
  • Tipo autossômico recessivo (ARO): forma grave. Frequência de 1 em 250.000 nascimentos. Ocorre com alta frequência na Costa Rica.
  • Tipo maligno infantil (IMO): um subtipo de ARO. Frequência estimada de 1/200.000 a 1/300.000. 1)

ADO (tipo dominante)

Idade de início: adolescência à idade adulta. Relativamente leve.

Outro nome: doença de Albers-Schönberg. Mutação no CLCN7 é a principal causa.

Principais problemas: fraturas, perda auditiva, paralisia do nervo facial, osteomielite.

ARO (tipo recessivo)

Início: logo após o nascimento. Tipo grave.

Genes: TCIRG1 (cerca de 50%), CLCN7, SNX10, OSTM1, etc.

Principais problemas: pancitopenia, hepatoesplenomegalia, atrofia do nervo óptico, nistagmo. Sem tratamento, geralmente fatal dentro de 10 anos. 4)

Outros tipos

Tipo intermediário: início na infância. Apresenta baixa estatura, fraturas, osteomielite, anemia, anomalias dentárias, paralisia do nervo facial e perda auditiva.

Deficiência de CA II: acompanhada de acidose tubular renal.

Tipo ligado ao X: mutação NEMO/IKBKG. O mais raro.

Q Quais são os tipos de osteopetrose?
A

Principalmente dividida em três tipos: autossômico dominante (ADO), autossômico recessivo (ARO) e ligado ao X. Existem ainda subtipos como a forma intermediária (início na infância) e a deficiência de anidrase carbônica II com acidose tubular. ADO é relativamente leve, mas ARO é grave e requer intervenção precoce.

  • Perda progressiva da visão e cegueira: causada por neuropatia óptica compressiva devido ao crescimento excessivo do osso no canal óptico. É um dos principais sintomas da forma maligna infantil. Em casos com mutação RANKL, foi relatada perda visual progressiva e indolor em ambos os olhos a partir dos 9 anos, levando eventualmente à percepção apenas de luz. 2)
  • Proptose: devido ao crescimento excessivo do osso orbital. Geralmente ocorre em ambos os olhos.
  • Diplopia: ocorre na paralisia de múltiplos nervos cranianos devido à compressão dos nervos III, IV e VI através da fissura orbital superior.

Achados clínicos (achados confirmados pelo médico durante o exame)

Seção intitulada “Achados clínicos (achados confirmados pelo médico durante o exame)”
  • Neuropatia óptica compressiva: causada por estenose do canal óptico. A TC requer monitoramento periódico do diâmetro do canal óptico. Estenose grave dos canais da base do crânio (canal auditivo interno, ápices orbitais bilaterais, canal óptico) é confirmada na TC. 2)
  • Atrofia óptica: observada no fundo de olho como palidez bilateral da papila óptica. 2) Casos graves com VEP flash não registrável também foram relatados.
  • Exoftalmia: em casos com mutação RANKL, foram medidas 27 mm no olho direito e 29 mm no olho esquerdo com exoftalmômetro de Hertel. 2)
  • Restrição dos movimentos oculares extrínsecos: especialmente limitação do olhar para cima (5 a 10 graus). 2)
  • Estrabismo: tanto exotropia quanto esotropia foram relatados. 2,3)
  • Nistagmo: pode aparecer desde a infância. Foi relatado um caso de nistagmo aos 7 meses de idade. 3,4)
  • Papiledema: devido a distúrbio do retorno venoso causado por osteosclerose, levando ao acúmulo de líquido cefalorraquidiano.
  • Paralisia dos nervos cranianos: Estenose dos forames neurais devido à proliferação óssea. Os nervos cranianos III, IV e VI (através da fissura orbitária superior) são afetados. A paralisia do nervo facial (VII nervo craniano) causa lagoftalmo.
  • Hipertelorismo: Aumento da distância interorbital.
  • Atrofia retiniana: Relatada em alguns casos.
  • Perda auditiva condutiva: Complicação devido à estenose do canal auditivo interno. Em casos com mutação RANKL, foi observada perda auditiva condutiva bilateral de 40 dB à direita e 32 dB à esquerda. 2)
Q Por que ocorre perda de visão na osteopetrose?
A

Devido à deficiência de reabsorção óssea pelos osteoclastos, o tecido ósseo imaturo comprime os canais neurais (canal óptico, fissura orbitária superior, forames da base do crânio). O canal óptico estreita-se gradualmente, causando compressão mecânica contínua do nervo óptico, levando à neuropatia óptica compressiva e, se não tratada, à atrofia do nervo óptico e cegueira. Consulte a seção “Fisiopatologia e mecanismo detalhado” para mais detalhes.

A osteopetrose é causada por mutações genéticas envolvidas na formação e função dos osteoclastos, com 23 genes identificados até o momento. O padrão de herança e o gene responsável influenciam significativamente a adequação do tratamento.

Os genes causadores da osteopetrose são amplamente classificados em dois tipos: o tipo em que os osteoclastos são formados mas não funcionam (tipo rico em osteoclastos) e o tipo em que os próprios osteoclastos não são formados (tipo pobre em osteoclastos).

GeneTipoFrequência na ARO
TCIRG1rico em osteoclastoscerca de 50%4)
CLCN7osteoclast-rich (também principal causa de ADO-2)13–16%3)
SNX10osteoclast-richcerca de 4%1)
OSTM1osteoclast-rich2–6%3)
TNFSF11 (RANKL)osteoclasto-pobreRaros2)
TNFRSF11A (RANK)osteoclasto-pobreRaros3)
  • TCIRG1: codifica a subunidade a3 da V-ATPase, envolvida na acidificação da lacuna de reabsorção óssea pelos osteoclastos.
  • CLCN7: codifica o canal de cloro dependente de voltagem 7. Também é a principal causa de ADO-2 (forma dominante). Quando a mutação do CLCN7 está associada a neurodegeneração, pode não melhorar com o HSCT.3)
  • TNFSF11 (RANKL) : fator de crescimento essencial para a diferenciação e ativação dos osteoclastos. Nesta mutação, o HSCT é ineficaz, sendo indispensável a exclusão por diagnóstico molecular. 2)
  • Fatores de risco : casamentos consanguíneos aumentam o risco de formas autossômicas recessivas. 2)

O diagnóstico precoce e a identificação do genótipo estão diretamente ligados à definição da estratégia terapêutica.

  • Radiografia : esclerose óssea difusa é característica. Observam-se achados de “osso dentro do osso” (vértebras e falanges) e “vértebras em sanduíche” (bandas de esclerose nas placas terminais vertebrais). 1,2)
  • Tomografia computadorizada : utilizada para monitorar o diâmetro do canal óptico, permitindo quantificar o grau de compressão neural. Confirma estenose grave dos canais da base do crânio (meato acústico interno, ápices orbitais bilaterais e canal óptico). 2)
  • Densitometria óssea (DEXA) : quantificação da densidade mineral óssea. Mesmo nos casos mais leves, o escore Z de densidade óssea é ≥5 DP. Em casos de ADO-2, foi relatada DMO de L1-L4 de 2.381 g/cm² (Z-score=12,1). 5)

A identificação do gene causador por sequenciamento completo do exoma (WES) é essencial para a decisão terapêutica. 2,3,4)

  • Obrigatório para avaliar a indicação de HSCT. Mutações em TNFSF11 (RANKL) ou OSTM1 tornam o HSCT ineficaz, sendo necessária exclusão por diagnóstico genético prévio. 2,3)
  • É realizada triagem de mutações em TCIRG1, CLCN7, SNX10, RANKL, entre outros.

Observa-se pancitopenia (anemia, trombocitopenia, leucocitose anormal), elevação de FA e LDH. 1,3,4)

A infecção congênita por citomegalovírus apresenta hepatomegalia, esplenomegalia, pancitopenia e anormalidades do nervo óptico, exigindo atenção. O diagnóstico definitivo requer teste genético. 4)

Q Por que o teste genético é necessário?
A

Porque a indicação de HSCT depende do gene causador. Mutações em RANKL (TNFSF11) ou OSTM1 tornam o HSCT ineficaz ou prejudicial, e realizar o transplante sem confirmar o genótipo impõe riscos desnecessários. É importante identificar o gene causador por sequenciamento completo do exoma para definir a estratégia terapêutica.

Transplante de células-tronco hematopoiéticas (HSCT)

Seção intitulada “Transplante de células-tronco hematopoiéticas (HSCT)”

É o único tratamento curativo para a osteopetrose maligna infantil (IMO). A realização precoce aumenta a chance de preservar ou recuperar a visão.

  • Em uma revisão de 34 casos com mutação SNX10, 16 foram submetidos a HSCT e 12 sobreviveram. 1)
  • A IMO não tratada geralmente leva a desfecho fatal dentro de 10 anos. 4)

Quando o HSCT não é eficaz:

  • Nas mutações OSTM1 e algumas mutações CLCN7 (com neurodegeneração), os sintomas neurológicos não melhoram após o HSCT. 3)
  • O HSCT é ineficaz na mutação TNFSF11 (RANKL). A triagem por diagnóstico genético é essencial. 2,3)

Na osteopetrose causada por mutações no gene TNFSF11 (RANKL), a administração de proteína recombinante RANKL é uma opção terapêutica. Nesta forma da doença, onde o transplante de células-tronco hematopoiéticas (HSCT) é ineficaz, o tratamento personalizado baseado no diagnóstico molecular é necessário.

Como tratamento sintomático, a cirurgia de descompressão do canal óptico envolve a abertura cirúrgica do tecido ósseo do canal óptico. Há relatos de que a realização precoce na forma maligna infantil pode prevenir a deterioração visual. O diagnóstico precoce é importante para retardar a progressão dos sintomas neurológicos.

Tratamento sintomático e abordagem multidisciplinar

Seção intitulada “Tratamento sintomático e abordagem multidisciplinar”
  • Manejo da insuficiência medular: Transfusão de hemácias, terapia quelante de ferro (deferiprona 30 mg/kg/dia). 5)
  • Tratamento da osteomielite: Desbridamento cirúrgico, oxigenoterapia hiperbárica e antibioticoterapia (ciprofloxacino + clindamicina). 2)
  • Monitoramento oftalmológico contínuo: Acompanhamento por TC do diâmetro do canal óptico, VEP e exame de fundo de olho.
  • Gerenciamento de fraturas, infecções e odontológico: é necessário acompanhamento regular por uma equipe multidisciplinar.
Q O transplante de células-tronco hematopoiéticas é eficaz para todos os tipos de osteopetrose?
A

Não. O TCTH é eficaz para a forma maligna infantil (ARO/IMO), mas é ineficaz em alguns genótipos, como mutações em RANKL (TNFSF11) ou OSTM1. Para casos com mutação em RANKL, a administração de proteína recombinante RANKL é uma opção. O diagnóstico genético antes do tratamento é essencial.

6. Fisiopatologia e mecanismos detalhados da doença

Seção intitulada “6. Fisiopatologia e mecanismos detalhados da doença”

A fisiopatologia básica da osteopetrose é a insuficiência de reabsorção óssea devido a defeitos na formação ou função dos osteoclastos. O tecido ósseo defeituoso não absorvido se acumula, resultando em uma estrutura óssea frágil e excessivamente densa. Quando a cavidade medular é invadida pelo osso, o espaço hematopoiético diminui, levando à hematopoiese extramedular no fígado e baço (causando hepatoesplenomegalia). 6)

Tipo rico em osteoclastos

Principais genes causadores: TCIRG1, CLCN7, OSTM1, SNX10, etc.

Mecanismo: os osteoclastos estão presentes, mas a reabsorção óssea não funciona.

TCIRG1: defeito na subunidade a3 da V-ATPase → acidificação deficiente da lacuna de reabsorção → incapacidade de reabsorção óssea. 3)

CLCN7: disfunção da troca Cl⁻/H⁺ → perda de coordenação com o transporte de íons hidrogênio pelo TCIRG1. 3)

tipo osteoclasto-pobre

Principais genes causadores: TNFSF11 (RANKL), TNFRSF11A (RANK).

Mecanismo: a própria diferenciação e ativação dos osteoclastos é prejudicada.

RANKL: fator de crescimento essencial para a diferenciação e ativação dos osteoclastos. Além do receptor RANK, também se liga ao LGR4 e suprime a diferenciação dos osteoclastos via via GSK3-β. 2)

Significado terapêutico: HSCT é ineficaz. A proteína recombinante RANKL é uma opção terapêutica.

A causa fundamental é o acúmulo de osso imaturo devido à deficiência de reabsorção óssea, que estreita o canal neural.

  • Estenose do canal óptico: compressão mecânica do nervo ópticoneuropatia óptica compressiva → atrofia do nervo óptico → cegueira
  • Estenose da fissura orbitária superior: compressão dos nervos cranianos III, IV e VI → paralisia dos músculos oculares e diplopia
  • Redução do volume orbital: crescimento excessivo do osso orbital → proptose (exoftalmia)
  • Distúrbio do retorno venoso: obstrução do fluxo venoso devido à esclerose óssea → acúmulo de líquido cefalorraquidiano → papiledema
Q Por que a disfunção dos osteoclastos afeta os olhos?
A

No desenvolvimento ósseo fetal e infantil, os forames por onde passam nervos, como o canal óptico e a fissura orbitária superior, são formados e mantidos em tamanho adequado pela reabsorção óssea dos osteoclastos. Quando os osteoclastos não funcionam, o tecido ósseo imaturo não é reabsorvido e se acumula, estreitando gradualmente esses forames. O estreitamento do canal óptico comprime o nervo óptico, levando à neuropatia óptica compressiva, atrofia do nervo óptico e cegueira.


7. Pesquisas recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)”

A terapia gênica com células-tronco hematopoiéticas autólogas está sendo considerada como uma alternativa ao HSCT alogênico. Ela pode evitar complicações do condicionamento pré-transplante e o risco de DECH (doença do enxerto contra hospedeiro). 4)

Xian et al. (2020) conseguiram gerar osteoclastos geneticamente corrigidos a partir de iPSCs de osteopetrose. Moscatelli et al. (2020) demonstraram prova de conceito de reversão fenotípica em uma revisão de estudos pré-clínicos de terapia gênica para IMO. 4)

Atualmente, 23 genes responsáveis foram identificados, mas relatos de novas mutações continuam surgindo.

  • SNX10 c.61C>T (p.Gln21Ter): primeiro relato da China. Caso de IMO devido a mutação homozigótica. 1)
  • TNFSF11 (RANKL) c.842T>G (p.Phe281Cys): primeiro relato de uma família tailandesa. Apresentou fenótipo relativamente leve. 2)
  • Novas mutações no TCIRG1: duas novas mutações foram identificadas: c.242dup e c.1020+1_1021+5dup. 4)
  • Novas mutações no CLCN7: foram relatadas c.1555C>T, c.286-9G>A e c.1025T>C. 3)

  1. Zhou T, Zeng C, Xi Q, et al. SNX10 gene mutation in infantile malignant osteopetrosis: A case report and literature review. J Cent South Univ (Med Sci). 2021;46(1):108-112.

  2. Lertwilaiwittaya P, Suktitipat B, Khongthon P, et al. Identification of novel mutation in RANKL by whole-exome sequencing in a Thai family with osteopetrosis; a case report and review of RANKL osteopetrosis. Mol Genet Genomic Med. 2021;9(8):e1727.

  3. Liang H, Li N, Yao R, et al. Clinical and molecular characterization of five Chinese patients with autosomal recessive osteopetrosis. Mol Genet Genomic Med. 2021;9(11):e1815.

  4. Jin X, Wang W, Pan Z, et al. Osteopetrosis misdiagnosed as congenital cytomegalovirus infection: A case report and literature review. Medicine. 2025;104(45):e45583.

  5. Lu K, Cheng B, Shi Q, et al. Anterior cruciate ligament rupture in a patient with Albers-Schonberg disease. BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):719.

  6. Khsiba A, Nasr S, Hamzaoui L, et al. Osteopetrosis: a rare case of portal hypertension. Future Sci OA. 2022;8(10):FSO817.

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