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Catarata e segmento anterior

Catarata Atópica (Atopic Cataract)

A catarata atópica é a catarata associada à dermatite atópica, sendo a causa mais comum de catarata em jovens. Ocorre com alta frequência em casos de sintomas cutâneos graves, geralmente bilateral. Frequentemente associada a ceratoconjuntivite, ceratocone e descolamento de retina.

A incidência de catarata em pacientes com DA é relatada como 0-25% em muitos relatos. Ocorre frequentemente em pacientes jovens (final da adolescência em diante) e é a causa mais comum de catarata juvenil.

Catarata em pacientes com DA foi relatada em 1936-1940 antes da disseminação dos corticosteroides tópicos. Brunsting (1936) encontrou catarata em cerca de 10% de 101 pacientes com DA (idade média de 22 anos) na Mayo Clinic, e Brunsting, Bair et al. (1940-1953) encontraram catarata em 11,7% de 1.158 pacientes com DA. A incidência não mudou significativamente antes e depois do advento dos corticosteroides tópicos, portanto, os corticosteroides tópicos não são considerados a causa principal.

Os fatores de risco para catarata em pacientes com DA são mostrados abaixo.

Fator de RiscoObservações Especiais
Gravidade da DA facialQuanto mais grave, maior a taxa de incidência
Histórico de bater nos olhosEstimulação física crônica
Nível sérico de LDHIndicador de atividade inflamatória
contagem de eosinófilos séricosgrau de inflamação eosinofílica
nível sérico de ECPconcentração de proteína granular eosinofílica
valor de flare na câmara anteriorgrau de ruptura da barreira hemato-aquosa
Q A catarata atópica é causada por corticosteroides tópicos?
A

Acredita-se que os corticosteroides tópicos não sejam a causa principal. A catarata em pacientes com dermatite atópica já era relatada desde 1936, antes do surgimento dos corticosteroides tópicos, e não houve mudança significativa na incidência após sua introdução. A causa principal é o estímulo mecânico crônico devido ao ato de bater nos olhos e o influxo de proteínas granulares eosinofílicas intraoculares, sendo o papel dos corticosteroides tópicos considerado negativo.

  • Redução da acuidade visual: Ocorre relativamente cedo quando a opacidade subcapsular anterior se estende ao eixo visual
  • Fotofobia: Sensibilidade excessiva a estímulos luminosos
  • Visão turva: Embaçamento geral da visão

As características da opacidade do cristalino na catarata atópica são opacidades subcapsulares anteriores em forma de “estrela-do-mar”, “estrelada” ou “fissuras lineares”, semelhantes à catarata traumática (por contusão). O tipo é dividido em duas categorias principais.

Tipo placa (Vogt)

Local da opacidade: Apenas opacidade subcapsular anterior

Morfologia: Opacidade estrelada ao longo da sutura em Y. Devido à degeneração do córtex superficial e estratificação local de células epiteliais

Evolução: Progressão relativamente lenta

Tipo complicado

Local da opacidade: Opacidade subcapsular anterior e posterior

Morfologia: Opacidade subcapsular anterior e posterior. Podem formar-se fendas aquosas no córtex do cristalino

Evolução: Progressão rápida da opacidade. Se houver fendas aquosas, pode tornar-se catarata intumescente em curto prazo

  • Ceratoconjuntivite (doenças oculares alérgicas como conjuntivite vernal)
  • Ceratocone
  • Descolamento de retina (alta taxa de complicação quando a catarata é grave)
  • Fragilidade/ruptura da zônula de Zinn: A ruptura da zônula de Zinn pode ocorrer devido ao estímulo físico do ato de bater no olho. A verificação pré-operatória é essencial.
Q Como a catarata atópica progride?
A

O tipo placa (Vogt) progride relativamente lentamente com apenas opacidade subcapsular anterior. Já o tipo complicado progride rapidamente com opacidade subcapsular anterior e posterior. Se ocorrerem fendas aquosas no tipo complicado, pode levar rapidamente a uma catarata intumescente. Como ocorre em jovens, se não tratado, o impacto na função visual é duradouro.

A principal causa da catarata atópica associada à DA é a estimulação física devido ao ato prolongado de coçar ou bater nos olhos causado pela coceira da blefarite, e a consequente entrada de proteínas granulares de eosinófilos no olho devido à ruptura da barreira sangue-humor aquoso.

  • Estimulação física: Coceira da blefarite associada à DA → hábito de bater ou coçar os olhos → trauma crônico no cristalino
  • Mecanismos inflamatórios/imunológicos: Ruptura da barreira sangue-humor aquoso → entrada de proteínas granulares de eosinófilos (como ECP) do soro no olho → dano às células epiteliais do cristalino → formação de opacidade
  • Fundo genético: Polimorfismo de nucleotídeo único (SNP) no receptor de IFN foi relatado como fator de risco para catarata. Em camundongos NC/Nga (modelo de DA espontânea), as células epiteliais do cristalino sofrem apoptose independentemente do desenvolvimento da DA, sugerindo predisposição genética.
  • Papel dos corticosteroides tópicos: Não é a causa principal (ver seção anterior)
  • Também conhecida como uma das doenças causadoras de fragilidade da zônula de Zinn 7)

O diagnóstico de catarata atópica baseia-se na combinação dos dois seguintes pontos:

  • Confirmação de dermatite atópica (diagnóstico dermatológico)
  • Confirmação de opacidade subcapsular anterior em forma de estrela, estrelada ou de fissura no microscópio de lâmpada de fenda

No diagnóstico diferencial, a combinação da localização da opacidade, morfologia e histórico é importante.

Doenças DiferenciaisLocalização da OpacidadeMorfologia da OpacidadeObservações Especiais
Catarata atópicaSubcapsular anterior (± subcapsular posterior)Forma de estrela-do-mar, estrelada ou de rachadura no chãoHistórico de DA, histórico de batida no olho
Catarata esteroideSubcapsular posterior (+ núcleo)Opacidade difusa logo abaixo da cápsula posteriorHistórico de uso de esteroides
Catarata traumáticaSubcapsular anteriorEm forma de estrela (semelhante)História clara de trauma

Antes da cirurgia de catarata atópica, além da cirurgia de catarata comum, a seguinte avaliação é obrigatória.

  • Presença de ruptura da zônula de Zinn: Verificar assimetria da profundidade da câmara anterior e presença de tremor do cristalino
  • Exame da retina periférica: Avaliação de complicações de descolamento ou rasgo de retina
  • Microscopia Biométrica Ultrassônica (UBM): Útil na detecção de rasgos na prega ciliar e descolamento epitelial 4)
  • Gonioscópio ou lente de três espelhos de Goldmann: Útil para confirmar a ruptura na pars plicata do corpo ciliar associada à dermatite atópica
  • Exame de ultrassom modo B: Realizado em casos de catarata avançada com má visualização do fundo de olho.
Q Como diferenciar catarata atópica de catarata esteroidal?
A

A localização da opacidade é diferente. A catarata atópica caracteriza-se por opacidade subcapsular anterior em forma de estrela-do-mar, estrela ou fissuras, semelhante à catarata traumática. A catarata esteroide é predominantemente opacidade subcapsular posterior (frequentemente opacidade nuclear e subcapsular posterior). O diagnóstico diferencial é feito pela combinação da história clínica (história de dermatite atópica ou uso de esteroides) e achados da lâmpada de fenda.

Terapia Medicamentosa (Prevenção e Retardo da Progressão)

Seção intitulada “Terapia Medicamentosa (Prevenção e Retardo da Progressão)”

O controle da blefarite atópica reduz o comportamento de bater nos olhos, inibindo o início e a progressão da catarata.

  • Pomada de Tacrolimo 0,1% (Pomada Protopic): Usada para blefarite atópica grave. Deve ser usada com cuidado para evitar contato com a pálpebra. Espera-se que a redução do comportamento de bater nos olhos diminua a incidência de catarata.
  • O controle dos sintomas cutâneos por meio do tratamento sistêmico da dermatite atópica é a base da prevenção de complicações oculares.

Realiza-se facoemulsificação (PEA) com implante de lente intraocular (LIO). Como os pacientes são frequentemente jovens e o núcleo é mole, a fragmentação ultrassônica é fácil.

Pontos de atenção intraoperatória:

  • Confirmação de fragilidade ou ruptura da zônula de Zinn é obrigatória (reconfirmar intraoperatoriamente junto com avaliação pré-operatória)
  • Exame da retina periférica (presença de rasgos ou descolamento)
  • Se houver catarata branca, é necessário garantir a visibilidade da cápsula anterior

Técnica Cirúrgica com Coloração da Cápsula Anterior

Seção intitulada “Técnica Cirúrgica com Coloração da Cápsula Anterior”

Na catarata branca (opacificação total do cristalino), a capsulorrexe contínua circular (CCC) é frequentemente difícil. O corante de cápsula anterior é usado para visualizar a cápsula anterior.

Abaixo estão as características dos principais corantes de cápsula anterior:

CoranteConcentraçãoCapacidade de coloraçãoObservações especiais
ICG (Verde de Indocianina)0,125%BomUsado para coloração da cápsula anterior1)
TB (Azul de Tripano)0,1% (1 mg/mL)Muito bomAtenção à toxicidade das células endoteliais da córnea em altas concentrações ou exposição prolongada5)6)
BBG (Azul Brilhante G)0,025%BomTem experiência de uso em cirurgia de retina, a aplicação na coloração da cápsula anterior fica a critério da instituição
  • Catarata atópica com fibrose capsular anterior: após coloração com TB, perfurar com agulha 27G → CCC com pinça → incisar a área fibrosada com tesoura 1)
  • Recomenda-se a formação da câmara anterior com OVD de alto peso molecular e alta concentração (Healon V®) 1)

Manejo de Casos com Fragilidade das Zônulas de Zinn

Seção intitulada “Manejo de Casos com Fragilidade das Zônulas de Zinn”

A catarata atópica é uma das causas de fragilidade das zônulas de Zinn7)8). Se houver fragilidade ou ruptura confirmada, considere as seguintes abordagens.

  • Considerar o uso de Anel de Tensão Capsular (CTR)2)
  • Se houver instabilidade do cristalino ou suporte capsular deficiente, preparar pré-operatoriamente o uso de CTR, ganchos capsulares ou alteração do método de fixação da LIO

Em pacientes com hábito de bater, há risco de novo deslocamento após fixação da LIO, sendo importante controlar o comportamento de bater no olho e realizar acompanhamento de longo prazo.

  • Sutura do LIO: Métodos utilizando fio de polipropileno 8-0 ou 9-0 foram relatados 3)
  • O método de fixação (sutura, fixação intraescleral, etc.) é escolhido individualmente com base na duração do atrito ocular, suporte capsular, endotélio corneano e experiência do cirurgião
  • Controle contínuo da blefarite atópica (uso contínuo de pomada de tacrolimo 0,1%)
  • Orientação para evitar coçar ou pressionar os olhos (essencial para prevenir desvio do LIO)
  • Exame de retina regular (possibilidade de descolamento de retina pós-operatório)
Q Quais são os pontos que requerem atenção especial na cirurgia de catarata atópica?
A

A fragilidade ou ruptura da zônula de Zinn e a complicação de descolamento de retina são os principais pontos de atenção que diferem da cirurgia de catarata comum. Antes da cirurgia, é necessário verificar a presença dessas condições e preparar-se para o uso de CTR ou sutura de LIO. Se a catarata estiver branca, utilize a técnica de coloração da cápsula anterior (ICG, TB, BBG) para garantir a visibilidade da cápsula anterior durante a capsulorrexe contínua circular (CCC). Após a cirurgia, a supressão do comportamento de bater no olho é essencial para manter a estabilidade da LIO.

6. Fisiopatologia e Mecanismo Detalhado de Ocorrência

Seção intitulada “6. Fisiopatologia e Mecanismo Detalhado de Ocorrência”

O mecanismo de ocorrência da catarata atópica não é completamente elucidado, mas acredita-se que estímulos físicos, mecanismos inflamatórios imunológicos e predisposição genética estejam envolvidos de forma complexa.

  1. Prurido associado à blefarite na dermatite atópica (DA) → Comportamento de coçar ou bater no olho por longo período
  2. Trauma crônico ao cristalino devido a estímulo físico
  3. Padrão de opacidade semelhante à catarata traumática (contusão) como evidência coadjuvante
  • Destruição da barreira hemato-aquosa → entrada de proteínas granulares eosinofílicas (como ECP) do soro para o olho
  • Aumento do valor de flare (concentração de proteína) na câmara anterior como fator de risco
  • Dano às células epiteliais do cristalino por proteínas granulares eosinofílicas → formação de opacidade
  • Há relatos de que o polimorfismo de nucleotídeo único (SNP) do receptor de IFN é um fator de risco para o desenvolvimento de catarata
  • Em camundongos NC/Nga (modelo de DA espontânea), as células epiteliais do cristalino sofrem apoptose independentemente do desenvolvimento de DA → sugerindo a existência de predisposição genética
  • Pode ocorrer devido ao efeito sinérgico da predisposição genética e do comportamento de bater nos olhos
  • O estresse físico causado por batidas crônicas no olho leva à ruptura das fibras da zônula de Zinn 7)
  • A zônula de Zinn divide-se em partes anterior, equatorial e posterior. As fibras da zônula anterior ramificam-se em leque e aderem à superfície da cápsula anterior na região equatorial 8)
  • Quando se agrava, causa posicionamento anormal do cristalino (subluxação ou queda)

Características morfológicas do tipo patológico

Seção intitulada “Características morfológicas do tipo patológico”
  • Tipo placa: Degeneração do córtex superficial e estratificação local de células epiteliais → opacidade em forma de estrela-do-mar
  • Tipo complicado: Formação de fendas aquosas → progressão rápida da opacidade cortical → catarata intumescente
  • Com o surgimento de medicamentos imunossupressores tópicos não esteroides, como a pomada de tacrolimo, o controle da blefarite atópica melhorou e espera-se uma redução na incidência de catarata.
  • Atualmente, estão sendo realizadas pesquisas sobre o impacto da transformação do tratamento da dermatite atópica com agentes biológicos, como dupilumabe, no manejo das complicações oculares (especialmente catarata e conjuntivite vernal).
  • O esclarecimento do mecanismo molecular da apoptose das células epiteliais do cristalino no modelo de camundongo NC/Nga pode contribuir para a compreensão da predisposição genética.
  • Avanços nos materiais das LIO e nos métodos de fixação oferecem potencial para melhorar os resultados pós-operatórios. O desenvolvimento de um método de fixação com excelente estabilidade a longo prazo para casos com hábito de bater ainda é um desafio.
  1. Horiguchi M, Miyake K, Ohta I. Staining of the lens capsule for circular continuous capsulorrhexis in eyes with white cataract. Arch Ophthalmol. 1998;116(4):535-537. doi:10.1001/archopht.116.4.535. PMID: 9554390.

  2. Gimbel HV, Sun R, Heston JP. Management of zonular dialysis during phacoemulsification with endocapsular ring implantation. J Cataract Refract Surg. 2001;27(3):447-456. PMID: 11255167.

  3. John T, Tighe S, Hashem O, et al. New use of 8-0 polypropylene suture for four-point scleral fixation of secondary intraocular lenses. J Cataract Refract Surg. 2018;44(12):1421-1425. doi:10.1016/j.jcrs.2018.03.046. PMID: 29986239.

  4. Tanaka M, Sunaga S, Ideta H, Fukumoto M, Kishi S, Komatsu H. Ultrasound biomicroscopy in the detection of breaks in detached ciliary epithelium. Am J Ophthalmol. 1999;128(4):466-471. PMID: 10577532.

  5. Melles GR, de Waard PW, Pameyer JH, van Vroonhoven CC. Trypan blue capsule staining to visualize the capsulorhexis in cataract surgery. J Cataract Refract Surg. 1999;25(1):7-9. doi:10.1016/S0886-3350(99)80004-2. PMID: 9932174.

  6. Hofmann C, Thaler S, Spitzer MS, et al. Blue dyes in ophthalmic surgery. Acta Ophthalmol Scand. 2006;84(5):633-638. doi:10.1111/j.1600-0420.2006.00655.x. PMID: 16801512.

  7. Dureau P. Pathophysiology of zonular diseases. Curr Opin Ophthalmol. 2008;19(1):27-30. doi:10.1097/ICU.0b013e3282f1ab1f. PMID: 18090915.

  8. Assia EI, Apple DJ, Morgan RC, Legler UF, Brown SJ. The relationship between the stretching capability of the anterior capsule and zonules. Invest Ophthalmol Vis Sci. 1991;32(10):2835-2839. PMID: 1915446.

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