A Cegueira Transitória por Smartphone (Transient Smartphone Blindness; TSB) é uma perda temporária de visão em um olho que ocorre ao olhar para o smartphone no escuro enquanto deitado de lado.
Quando relatado pela primeira vez na literatura acadêmica, todos os casos relatados usavam smartphones no escuro enquanto deitados de lado antes de dormir e notaram perda de visão por vários minutos após desligar a tela. A causa não é uma doença orgânica, mas uma diferença fisiológica normal na adaptação à luz entre os olhos.
Esta condição é clinicamente importante porque precisa ser diferenciada de doenças graves como AIT e esclerose múltipla. Também foi associada à fadiga ocular digital (Digital Eye Strain; DES), incluindo olho seco1).
QÉ possível perder a visão temporariamente apenas por olhar para o smartphone?
A
Sim, é possível. Foram relatados casos de perda temporária de visão no olho coberto após olhar para o smartphone em um quarto escuro com um olho coberto por um travesseiro, e então desligar a tela. Isso é devido a uma diferença normal na adaptação à luz e não é uma doença.
Quando um olho é fisicamente obstruído enquanto o outro olho fixa uma tela brilhante de smartphone por um longo período, ocorre uma grande diferença no grau de adaptação à luz entre os dois olhos.
Olho fixador: Estado de adaptação à luz. Os pigmentos fotorreceptores (principalmente rodopsina) estão em estado de desbotamento.
Olho obstruído: Estado de adaptação ao escuro. Apesar de estar em local escuro, a recuperação suficiente da sensibilidade ainda não ocorreu.
Imediatamente após desligar a tela, o olho obstruído não consegue se adaptar instantaneamente ao ambiente escuro, resultando em uma percepção de perda temporária da visão. Esse fenômeno é uma resposta fisiológica normal e não causa danos à retina ou aos nervos.
A fadiga ocular digital (DES) é uma complicação comum do uso prolongado de smartphones e tem sido associada à perda temporária da visão 1).
O diagnóstico é estabelecido por meio de uma anamnese detalhada. O mais importante é confirmar as circunstâncias típicas de início (local escuro, posição deitada de lado, obstrução de um olho, uso de smartphone).
Abaixo estão as doenças que requerem diagnóstico diferencial.
Amaurose fugaz: Perda visual transitória monocular devido a doença carotídea ou cardíaca. Avaliação de fatores vasculares é obrigatória.
NA-AION (Neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica): Caracterizada por diminuição súbita e persistente da visão e edema do disco óptico. O mecanismo é fundamentalmente diferente do TSB2).
Esclerose múltipla: A diminuição da visão devido à neurite óptica é persistente e frequentemente acompanhada de dor ao movimentar os olhos.
QQual é o ponto que o diferencia do AIT?
A
O TSB sempre apresenta situações típicas de ocorrência (local escuro, decúbito lateral, oclusão de um olho, uso de smartphone) e se repete na mesma situação. Ocorre frequentemente em jovens sem sintomas neurológicos e fatores de risco vasculares. Se houver suspeita de AIT ou amaurose fugaz, são necessários ultrassom de carótida e avaliação cardíaca, mas se a situação for compatível com TSB, exames excessivos podem ser evitados.
O TSB é uma resposta fisiológica normal e não requer tratamento. O prognóstico é bom e não deixa danos visuais orgânicos.
Para prevenir a recorrência, as seguintes modificações no estilo de vida são eficazes:
Ajuste ambiental
Usar em local iluminado: Evitar o uso do smartphone em locais escuros.
Usar iluminação indireta: Ao usar antes de dormir, acender uma luz próxima às mãos.
Melhora da postura
Usar em decúbito dorsal ou sentado: Evitar a posição de decúbito lateral que cobre um olho.
Usar com ambos os olhos abertos: Ajustar a postura para que não ocorra oclusão de um olho.
Configurações do dispositivo
Usar modo escuro: Reduzir o brilho da tela diminui a diferença de adaptação 1).
Ajuste automático de brilho: Usar configurações de brilho que se adaptam à luminosidade ambiente.
QMudar para o modo escuro pode prevenir?
A
Espera-se que o modo escuro reduza o brilho da tela e diminua a diferença de adaptação à luz entre os olhos em ambientes escuros1). No entanto, a prevenção mais eficaz é evitar a posição de deitar de lado com um olho coberto.
6. Fisiopatologia e Mecanismo Detalhado de Ocorrência
O mecanismo central desta doença está na diferença entre o branqueamento do pigmento fotorreceptor (rodopsina) nos fotorreceptores da retina e sua ressíntese.
Comparação do estado do olho coberto e do olho fixador é mostrada abaixo.
Estado
Olho coberto (olho afetado)
Olho fixador
Durante uso do celular
Em adaptação ao escuro
Adaptação à luz e branqueamento da rodopsina
Imediatamente após desligar a tela
Recuperação atrasada → perda de visão
Adaptação ao escuro normal
A rodopsina é isomerizada pela luz de 11-cis-retinal para all-trans-retinal (branqueamento) e é ressintetizada em rodopsina no escuro. Esse processo de ressíntese leva vários minutos.
No olho que fixa, a rodopsina sofre grande branqueamento devido à exposição prolongada à luz brilhante, mas no escuro, a adaptação ao escuro progride normalmente. Por outro lado, embora o olho ocluído estivesse no escuro, o circuito de adaptação ao escuro atrasa por algum motivo e, quando exposto repentinamente ao escuro após desligar a tela, o olho não consegue desempenhar sua função visual imediatamente.
O exame de eletrorretinografia mostrou uma diminuição temporária na amplitude da onda B no olho ocluído, o que é uma evidência objetiva da inibição temporária da função fotorreceptora através das células bipolares.
O mecanismo é fundamentalmente diferente da NA-AION (neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica), onde isquemia, inflamação ou dano estrutural não estão envolvidos no TSB 2).
7. Pesquisas mais recentes e perspectivas futuras (relatórios em fase de pesquisa)
Pesquisas estão em andamento sobre o efeito da luz azul emitida pelas telas de smartphones nos fotorreceptores. Quanto aos efeitos de longo prazo dos filtros de bloqueio de luz azul e do modo escuro na função visual, ainda não há evidências suficientes acumuladas 1).
Pesquisas relacionadas à fadiga ocular digital (DES)
DES é um conjunto de sintomas associados ao uso prolongado de smartphones e PCs, e flutuações temporárias da visão estão sendo posicionadas como um de seus sintomas. No relatório DES da TFOS (Sociedade do Filme Lacrimal e Superfície Ocular), sugere-se uma associação entre o uso de dispositivos digitais e a perda temporária de visão, mas faltam dados epidemiológicos de longo prazo 1).
QDiretrizes preventivas serão desenvolvidas no futuro?
A
Atualmente, não existem diretrizes preventivas claras. Se pesquisas de longo prazo sobre DES se acumularem, diretrizes baseadas em evidências sobre postura recomendada e configurações de brilho ao usar smartphones poderão ser desenvolvidas 1).
Wolffsohn JS, Vagge A, Deng S, et al. TFOS Lifestyle: Impact of lifestyle challenges on the ocular surface – Digital eye strain. Ocul Surf. 2023;28:165-175.