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Retina e vítreo

Doença do Vírus Ebola (Complicações Oftálmicas)

1. Doença do Vírus Ebola (Complicações Oculares)

Seção intitulada “1. Doença do Vírus Ebola (Complicações Oculares)”

A doença do vírus Ebola (EVD) é uma doença zoonótica causada pelo vírus Ebola, um vírus RNA de fita simples negativa envelopado da família Filoviridae e gênero Ebolavirus. Quatro espécies principais (Zaire, Sudão, Taï Forest, Bundibugyo) causam doença em humanos, e entre as seis cepas (EBOV, SUDV, TAFV, BDBV, BOMV, RESTV), o Ebola Zaire (EBOV) é considerado o mais grave.1)

Foi relatado pela primeira vez em 1976 no antigo Zaire (atual República Democrática do Congo), com 318 casos e taxa de letalidade de 88%.1) Durante o surto na África Ocidental em 2014, mais de 28.000 casos foram infectados e cerca de 11.000 pessoas morreram, com uma taxa de letalidade média geral de cerca de 50%. A taxa de letalidade da cepa Zaire varia de 57 a 90%, da cepa Sudão de 41 a 65% e da cepa Bundibugyo de 40%, variando amplamente entre as cepas.1) O hospedeiro natural é considerado o morcego frugívoro da família Pteropodidae, e a transmissão ocorre por contato direto com sangue ou fluidos corporais de animais infectados ou pacientes.1)

As complicações oculares ocorrem como parte da Síndrome Pós-Doença do Vírus Ebola (PEVDS) após a recuperação da infecção aguda. Até 60% dos sobreviventes relatam sintomas oculares após a infecção aguda, e o mais comum é a uveíte, que afeta até um terço dos sobreviventes.

A tabela abaixo mostra as principais cepas do vírus Ebola e as taxas de letalidade.

Cepa (Abreviação)Taxa de Letalidade EstimadaPrincipais Áreas de Ocorrência
Zaire (EBOV)57–90%RDC, Gabão
Sudão (SUDV)41–65%Sudão, Uganda
Bundibugyo (BDBV)40%Uganda

Fase aguda (período de incubação de 2 a 21 dias, média de 8 a 10 dias)

Seção intitulada “Fase aguda (período de incubação de 2 a 21 dias, média de 8 a 10 dias)”

Os sintomas sistêmicos na fase aguda são variados, incluindo febre, cefaleia, mialgia, artralgia, dor abdominal, vômito, diarreia e sangramento. 1) Os sintomas oculares incluem:

  • Hiperemia conjuntival: Ocorre em 48–58% dos casos. Hiperemia bilateral intensa é considerada um preditor de infecção aguda por EVD.
  • Hemorragia subconjuntival: Ocorre refletindo a tendência hemorrágica.
  • Baixa acuidade visual: Pode ocorrer redução inexplicada da visão mesmo na fase aguda.
  • Baixa acuidade visual: Devido a uveíte ou catarata. Relatos indicam que 39% dos olhos afetados tiveram acuidade visual inferior a 20/400.
  • Sensação de corpo estranho, fotofobia, ofuscamento, halos: Associado a uveíte anterior e intermediária.
  • Dor: Dor ocular associada a uveíte anterior.

Achados Oculares na Fase Aguda

Hiperemia conjuntival (48-58%): Hiperemia bilateral é um preditor de infecção aguda.

Hemorragia subconjuntival: Achado que reflete diátese hemorrágica.

Queda inexplicável da acuidade visual: Pode ocorrer mesmo na fase aguda.

Complicações Oculares da PEVDS

Uveíte (mais comum): Uveíte anterior, intermediária, posterior e panuveíte. Ocorre 3-8 semanas após a alta. Unilateral e anterior é a mais frequente.

Catarata: Ocorre como sequela da uveíte. Indicação mais comum de intervenção cirúrgica.

Episclerite e ceratite parenquimatosa: Podem ocorrer relativamente cedo.

Neuropatia óptica e distúrbios da motilidade ocular: Achados em casos graves.

Persistência Viral no Humor Aquoso

Isolamento de vírus vivo do humor aquoso: Não isolado da lágrima, detectado apenas no humor aquoso.

RT-PCR em 19-34 meses: Todos os casos relatados foram negativos.

Em um estudo de coorte de 112 pessoas em Serra Leoa, publicado em dezembro de 2024, a prevalência de uveíte foi de 21%, sendo 57% uveíte posterior e 29% panuveíte, e 39% dos olhos afetados apresentaram acuidade visual inferior a 20/400.

Q Quando ocorre a uveíte após a infecção pelo vírus Ebola?
A

Geralmente ocorre de 3 a 8 semanas após a alta hospitalar. A mais comum é a uveíte anterior unilateral, com fatores de risco incluindo alta carga viral na fase aguda, hiperemia conjuntival e idade avançada. Relatos indicam ocorrência em 21 a 33% dos sobreviventes. Consulte também “5. Tratamento Padrão” para mais detalhes.

O EBOV é um vírus RNA de fita negativa envelopado, com genoma de aproximadamente 19 kb e 7 genes. 1)5) Morcegos frugívoros são considerados hospedeiros naturais, e a transmissão ocorre por contato direto com sangue ou fluidos corporais de animais ou humanos infectados. 1)

Fatores de risco para complicações oculares (PEVDS) são os seguintes:

  • Alta carga viral na fase aguda: associada à entrada do vírus no humor aquoso.
  • Hiperemia conjuntival na fase aguda: fator preditivo para desenvolvimento de uveíte.
  • Idade avançada: associada ao aumento do risco de complicações oculares em sobreviventes.
  • Persistência viral em fluidos corporais: o vírus pode permanecer no sêmen e no humor aquoso após a recuperação. 1)3)

O diagnóstico definitivo de EVD agudo só é possível em instalações de pesquisa BSL-4. 1)

Método de testePeríodo alvoObservações
RT-PCR (NAT)Início dos sintomasRecomendado pela OMS. Resultado negativo dentro de 48 horas após exposição não exclui infecção 1)
Testes sorológicos IgM/IgGApós fase agudaTornam-se positivos dias a semanas após infecção
Isolamento viralFase agudaRealizável apenas em instalações BSL-4

Ressalta-se que resultado negativo dentro de 48 horas após exposição não exclui infecção. 1)

Diagnóstico oftalmológico pós-infecção (PEVDS)

Seção intitulada “Diagnóstico oftalmológico pós-infecção (PEVDS)”

A imagem multimodal é utilizada no diagnóstico oftalmológico pós-infecção.

  • Exame com lâmpada de fenda: Avaliação de achados de uveíte anterior (precipitados ceráticos, flare, células na câmara anterior).
  • Fotografia de fundo e angiografia fluoresceínica: Avaliação de uveíte posterior e coriorretinite.
  • OCT (Tomografia de Coerência Óptica): Avaliação de lesões retinianas. Anormalidades na camada externa da retina são relatadas como achado característico.
  • Características das lesões retinianas: Lesões não pigmentadas são predominantes. Acompanhadas de “Dark without pressure (DWP)”. Lesões peripapilares tendem a seguir a rafe horizontal e evitar a fóvea.
  • Fase aguda: Deve ser diferenciada de chikungunya, dengue, febre tifoide, infecção pelo vírus Zika e malária.
  • Uveíte pós-infecciosa: Diferenciar de HSV, citomegalovírus, EBV, vírus do Nilo Ocidental, dengue, Zika, POHS (síndrome de histoplasmose ocular presumida), sarcoidose, sífilis, tuberculose e toxoplasmose.
Q Quais são os achados de imagem das lesões retinianas causadas pelo vírus Ebola?
A

As lesões retinianas são não pigmentadas e acompanhadas de “Dark without pressure (DWP)”. Lesões peripapilares tendem a seguir a rafe horizontal e evitar a fóvea. A OCT mostra anormalidades na camada externa da retina. A imagem multimodal é útil para o diagnóstico.

A base do tratamento da EVD aguda é o suporte (fluidos, manejo de eletrólitos, terapia sintomática). Dois medicamentos antivirais aprovados pela FDA em outubro de 2020 estão disponíveis. 1)

  • Inmazeb (atoltivimab/maftivimab/odesivimab-ebgn): Combinação de três anticorpos monoclonais.
  • Ebanga (ansuvimab-zykl, mAb114): Anticorpo monoclonal único.

O relatório do ensaio PALM mostrou taxa de mortalidade em 28 dias de 34% no grupo mAb114, 35% no grupo REGN-EB3 (precursor do Inmazeb), em comparação com 50% no grupo ZMapp (medicamento padrão antigo) e 53% no grupo remdesivir. 7)8)

Tratamento Sistêmico na Fase Aguda

Terapia de suporte: Fluidos, correção eletrolítica e tratamento sintomático são a base.

Inmazeb: Aprovado pela FDA (outubro de 2020). Combinação de 3 mAbs. Visa a cepa Zaire.

Ebanga (mAb114): Aprovado pela FDA (outubro de 2020). mAb único. Visa a cepa Zaire.

Tratamento da Uveíte

Colírio de esteroide: 4 vezes ao dia a cada hora (dependendo da gravidade). Associado a cicloplégicos.

Prednisona oral: Em casos graves, considerar esteroides sistêmicos.

Injeção intravítrea de esteroide: Opção para casos refratários.

Imunomoduladores: Papel atualmente desconhecido.

Cirurgia de Catarata

Intervenção cirúrgica mais frequente: Realizada para catarata secundária à uveíte.

Avaliação pré-operatória: Considerar risco de resíduo viral no humor aquoso. RT-PCR em 19-34 meses foi negativa em todos os casos relatados.

Cuidados pós-operatórios: Risco elevado de complicações devido à uveíte prévia, necessitando manejo cuidadoso.

Q Existe risco especial para cirurgia de catarata em sobreviventes do Ebola?
A

Devido ao histórico de uveíte, o risco de complicações pós-operatórias é maior que o normal. Há também risco de persistência viral no humor aquoso, mas relatos em 19-34 meses mostraram todos os casos negativos para RT-PCR. Recomenda-se seguir protocolos adequados de controle de infecção durante a cirurgia.

O EBOV entra através de mucosas ou pele escoriada. Após a glicoproteína do envelope (GP) se ligar à superfície da célula hospedeira, o vírus é internalizado por macropinocitose. Dentro do endossomo, as catepsinas L/B clivam o domínio GP1, que então se liga ao receptor NPC1 intracelular, ocorrendo fusão de membranas. 5)

Os alvos iniciais da infecção são macrófagos e células dendríticas (células apresentadoras de antígeno), que medeiam a disseminação viral por todo o corpo. Mecanismos de evasão imune viral incluem a inibição da sinalização MAPK e NF-κB por VP24, e a inibição do reconhecimento de dsRNA e expressão de IFN por VP35. 5)

O olho é um dos “órgãos com privilégio imunológico” (como cérebro e órgãos reprodutivos) onde o vírus pode persistir após infecção aguda. 7) Acredita-se que o EBOV entre nos tecidos oculares durante o EVD agudo, escape da vigilância imunológica e persista no humor aquoso. Enquanto o vírus não é isolado das lágrimas, vírus vivo é isolado do humor aquoso, sugerindo que o ambiente de privilégio imunológico intraocular contribui para a persistência viral. 7)

Foi demonstrado que o EBOV entra e persiste em tecidos com privilégio imunológico, incluindo o olho, durante o EVD agudo, com isolamento de vírus vivo do humor aquoso, mas não das lágrimas. 7)

Q Por que o vírus Ebola persiste no olho?
A

O olho, juntamente com o cérebro e os órgãos reprodutivos, é chamado de “órgão com privilégio imunológico”, um ambiente com mecanismos limitados de vigilância imunológica. Acredita-se que o vírus entre na câmara anterior durante o EVD agudo, escape da resposta imune e persista. Vírus vivo foi isolado do humor aquoso, mas não foi detectado nas lágrimas. 7)


7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)”
  • Ervebo (rVSV-ZEBOV): Aprovado pela FDA em dezembro de 2019. Para maiores de 18 anos. Dose única intramuscular. Eficaz apenas contra a cepa Zaire. 1) Administrado mais de 250.000 vezes durante o surto na República Democrática do Congo entre 2018 e 2020. 3)
  • Zabdeno/Mvabea (vacina de duas doses): Duas doses com intervalo de 8 semanas. Para maiores de 1 ano. 1)

Pesquisa de Antivirais e Anticorpos Neutralizantes

Seção intitulada “Pesquisa de Antivirais e Anticorpos Neutralizantes”

O anticorpo neutralizante de amplo espectro MBP134AF mostrou eficácia contra três cepas: EBOV, SUDV e BDBV, e a pesquisa está em andamento. Além disso, se os medicamentos anti-EBOV são eficazes contra o vírus remanescente em órgãos com privilégio imunológico, como os olhos, ainda não é conhecido atualmente. 7)

A busca por compostos de pequenas moléculas que inibem a entrada do vírus através do receptor NPC1 está em andamento. 5)

  • Toremifeno: Inibe a entrada celular in vitro com EC50 = 0,162 μM.
  • Cloridrato de berbamina: Alcançou 100% de sobrevivência em modelo de camundongo.
  • Remdesivir: EC50 = 0,06 μM contra EBOV in vitro. No entanto, a eficácia clínica no ensaio PALM foi limitada (taxa de mortalidade de 53%). 5)8)
Q Existem vacinas ou medicamentos para o vírus Ebola?
A

Existem vacinas como Ervebo (aprovada pela FDA em dezembro de 2019, dose única) e Zabdeno/Mvabea (2 doses, para maiores de 1 ano). Como tratamentos, Inmazeb e Ebanga foram aprovados pela FDA em outubro de 2020, mas ambos visam a cepa Zaire. 1) Atualmente, não existem tratamentos eficazes para outras cepas (como a cepa Sudão).


  1. Hussein HA. Brief review on ebola virus disease and one health approach. Heliyon. 2023;9:e19036.
  2. Rwagasore E, Nsekuye O, ElKhatib Z, et al. Lessons learned from Sudan Ebola Virus Disease (SUDV) preparedness in Rwanda. J Epidemiol Glob Health. 2023;13:528-538.
  3. Ahmad B, Sagide M, Ntamwinja S, et al. National burden of Ebola virus disease in Democratic Republic of the Congo. Ann Med Surg. 2024;86:4579-4585.
  4. Drogy M, Glezer C, Engel E, et al. Systematic review and meta-analysis of female reproductive health following Ebola virus disease. Am J Trop Med Hyg. 2025;112:663-673.
  5. Durante D, Murugesh V, Kalanquin T, et al. Small molecule drug discovery for Ebola virus disease. RSC Med Chem. 2025;16:4571-4598.
  6. Nash RK, Bhatia S, Morgenstern C, et al. Ebola Virus Disease mathematical models and epidemiological parameters. Lancet Infect Dis. 2024;24:e762-e773.
  7. O’Donnell KL, Marzi A. Immunotherapeutics for Ebola Virus Disease: hope on the horizon. Biologics. 2021;15:79-86.
  8. Gao Y, Zhao Y, Guyatt G, et al. Effects of therapies for Ebola virus disease: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Microbe. 2022;3(9):e683-e692.

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