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Catarata e segmento anterior

Sintomas Oculares da Distrofia Miotônica

1. Quais são os sintomas oculares da distrofia miotônica?

Seção intitulada “1. Quais são os sintomas oculares da distrofia miotônica?”

A distrofia miotônica (DM) é uma doença multissistêmica caracterizada por atrofia muscular esquelética, fraqueza muscular e miotonia (rigidez muscular). Apresenta herança autossômica dominante e é causada pela expansão de repetições de nucleotídeos.

Existem dois tipos principais de DM. A DM1 (doença de Steinert) é causada pela expansão da repetição CTG no gene DMPK no cromossomo 19, enquanto a DM2 é causada pela expansão da repetição CCTG no gene CNPB no cromossomo 3.

Epidemiologia: A prevalência da DM foi estimada em cerca de 1 em 8.000 pessoas na Europa. No entanto, estudos genéticos recentes sugerem que a frequência da mutação pode chegar a 1 em 2.760 pessoas, indicando que a prevalência real pode ser maior.

Como a DM é uma doença multissistêmica, os sintomas oculares são tratados como parte do manejo geral da doença. A catarata é a complicação oftalmológica mais frequente e pode ser o primeiro sintoma que leva o paciente ao oftalmologista antes da descoberta dos sintomas sistêmicos.

Q Quais são os sintomas sistêmicos associados à distrofia miotônica?
A

Os sintomas sistêmicos incluem fraqueza muscular esquelética, miotonia, ptose, fácies miopática, alopecia precoce, distúrbios de condução cardíaca, distúrbios respiratórios, distúrbios do sono, anormalidades endócrinas e disfunção cognitiva. A DM1 tem início mais precoce e é mais grave que a DM2, sendo as complicações cardíacas a principal causa de morte.

A diminuição da acuidade visual devido à progressão da catarata é o sintoma mais relatado. Além disso, os seguintes sintomas podem estar presentes.

  • Ptose palpebral: Ptose miogênica devido à fraqueza do músculo levantador da pálpebra superior. O paciente sente dificuldade em abrir os olhos.
  • Diplopia: Resulta da fraqueza dos músculos extraoculares ou de distúrbios da motilidade ocular causados por miotonia.
  • Fotofobia: Em casos associados à distrofia endotelial de Fuchs, pode ocorrer edema corneano temporário ao acordar, causando visão turva.
  • Resposta deficiente a midriáticos: Devido à tendência à miose, a dilatação com midriáticos comuns pode ser insuficiente.

Achados do Cristalino

Tipo Vogt: Opacidade granular policromática no córtex superficial. Predomina no córtex superficial da área pupilar, bem observada à retroiluminação. Requer diferenciação dos focal dots da catarata senil.

Tipo Fleischer: Opacidade fibrosa no córtex posterior superficial. Pode ser observada à retroiluminação como opacidade estrelada que se espalha ao longo da sutura em Y. Com a progressão, torna-se opacidade fibrosa branca e causa grave comprometimento visual.

Anexos Oculares e Segmento Anterior

Ptose palpebral: Geralmente de origem miogênica e bilateral. Pode estar associada à queda das sobrancelhas devido à fraqueza do músculo frontal.

Miose: Apresenta dilatação pupilar inadequada mesmo após o uso de midriáticos. Acredita-se que seja causada por disfunção do músculo dilatador da pupila.

Hipotonia ocular: A pressão intraocular média em pacientes com DM é cerca de 23% menor que em indivíduos saudáveis. Acredita-se que o descolamento do corpo ciliar seja uma das causas.

Distrofia endotelial de Fuchs (FECD): A frequência de FECD em pacientes com DM1 é estimada em até 46%. Descobriu-se que a expansão da repetição CTG no gene DMPK pode causar sintomas clínicos de FECD por meio de toxicidade mediada por RNA. Esta é uma complicação oftalmológica importante e recentemente reconhecida.

Retinopatia pigmentar: Pode apresentar achados semelhantes à distrofia padrão com alterações maculares em forma de borboleta. Não é um achado consistente em DM1 ou DM2, e a aparência também é variável.

Distúrbio da motilidade ocular: Observam-se anormalidades na velocidade das sacadas e miotonia dos músculos extraoculares. Paralisia ocular isolada é relativamente rara, mas vários padrões foram relatados.

Q Em que fase da DM a catarata aparece?
A

A catarata aparece relativamente cedo tanto na DM1 quanto na DM2. Especialmente na DM2, a catarata pode ser o primeiro sintoma inicial. A morfologia da opacidade da catarata (tipo Vogt e Fleischer) é característica e frequentemente leva à descoberta da doença sistêmica.

A DM1 é causada pela expansão da repetição CTG no gene DMPK, e a DM2 pela expansão da repetição CCTG no gene CNPB. É uma doença hereditária autossômica dominante, com ocorrência familiar.

O mecanismo de desenvolvimento da opacidade do cristalino não é completamente compreendido, mas os seguintes fatores são considerados:

  • Toxicidade do RNA: O RNA produzido a partir de repetições anormalmente alongadas acumula-se no núcleo e prejudica a função das proteínas de ligação ao RNA.
  • Anormalidade de splicing: A disfunção de proteínas de ligação ao RNA (como MBNL1) causa splicing anormal das proteínas do cristalino.
  • Anormalidade de canais iônicos: Deficiências primárias nos canais de sódio e cloreto da membrana das células musculares estão envolvidas.

Quanto à associação com FECD, foi demonstrado que a expansão da repetição CTG no DMPK, mutação causadora de DM1, pode causar sintomas clínicos de FECD, provavelmente por toxicidade mediada por RNA. FECD também está associada à expansão da repetição CTG no gene TCF4, mas em pacientes com DM acredita-se que ocorra por mecanismo diferente.

O diagnóstico de DM é feito principalmente por avaliação neurológica, mas achados oftalmológicos frequentemente são a chave para o diagnóstico.

  • Teste Genético: A medição do número de repetições CTG no gene DMPK (DM1) ou repetições CCTG no gene CNPB (DM2) é o diagnóstico definitivo. Normalmente, o número de repetições CTG é de 5 a 35, mas no DM1 excede em muito esse valor.
  • Eletromiografia (EMG): Mostra descargas miotônicas e potenciais de unidade motora de curta duração. Com a disseminação dos testes genéticos atualmente, é considerada uma ferramenta auxiliar de diagnóstico.
  • Eletrocardiograma: Muito importante para avaliar distúrbios de condução cardíaca, devendo ser realizado em todos os pacientes com DM.
ExameObjetivoAchados
Exame com lâmpada de fendaAvaliação de catarataDeterminação do tipo Vogt ou Fleischer
Método de transiluminaçãoConfirmação do padrão de opacidadeOpacidade estrelada ao longo da sutura em Y
Exame de células endoteliais da córneaAvaliação de complicação de FECDRedução do número de células endoteliais
Medição da pressão intraocularConfirmação de hipotonia ocularRelato de 23% menor em comparação com indivíduos saudáveis

O padrão de opacidade da catarata é característico. Sob midríase, observa-se opacidade granular policromática (tipo Vogt) e opacidade estrelada do córtex posterior (tipo Fleischer). A catarata paratireoidiana também apresenta achados semelhantes, necessitando de diagnóstico diferencial, mas pode ser determinada pela combinação de achados sistêmicos.

Atualmente, não existe terapia modificadora da doença para DM. O manejo é focado no tratamento sintomático de cada sintoma.

A catarata que afeta a função visual é tratada com cirurgia de catarata (facoemulsificação). A progressão é relativamente lenta, mas quando a opacidade do tipo Fleischer progride, ocorre diminuição da função visual e a cirurgia se torna necessária.

Cuidados anestésicos: Pacientes com DM são altamente sensíveis aos efeitos depressores respiratórios de sedativos, hipnóticos e opioides. Evite o uso de succinilcolina, pois pode causar reações imprevisíveis. Antagonistas de bloqueadores neuromusculares (neostigmina) também podem piorar a miotonia. A cirurgia deve ser realizada, sempre que possível, sob anestesia local (tópica ou peribulbar). Para cirurgia de catarata, foi relatada eficácia e segurança da anestesia peribulbar com ropivacaína.

Tratamento da Ptose e Distúrbios da Motilidade Ocular

Seção intitulada “Tratamento da Ptose e Distúrbios da Motilidade Ocular”

Se a ptose palpebral ou a ptose da sobrancelha afetar a função visual, a correção cirúrgica é indicada. A cirurgia de estrabismo raramente é indicada.

Q A cirurgia de catarata pode ser realizada com segurança em pacientes com DM?
A

Com o uso de anestesia local, a cirurgia de catarata pode ser realizada com segurança mesmo em pacientes com DM. No entanto, é importante a colaboração com um anestesiologista e um clínico geral que conheçam bem o DM. Caso seja necessária anestesia geral, recomenda-se o uso de anestésicos voláteis como desflurano ou sevoflurano, opioides de ação ultracurta (remifentanila) e relaxantes musculares não despolarizantes (vecurônio, rocurônio).

6. Fisiopatologia e Mecanismos Detalhados de Desenvolvimento

Seção intitulada “6. Fisiopatologia e Mecanismos Detalhados de Desenvolvimento”

A fisiopatologia básica do DM é a toxicidade mediada por RNA, ou seja, a toxicidade causada pelo RNA produzido a partir de sequências repetitivas de nucleotídeos anormalmente alongadas.

Mecanismo molecular do DM1: A expansão da repetição CTG na região 3’ não traduzida do gene DMPK produz RNA repetitivo CUG (r(CUG)n) que forma focos de RNA no núcleo. Esses focos de RNA sequestram e inativam proteínas de ligação ao RNA, como MBNL1 (Muscleblind-like 1). Como resultado, ocorre splicing anormal do pré-mRNA de vários genes regulados pelo MBNL1 (como o canal de cloro ClC-1 e o receptor de insulina). O splicing anormal do ClC-1 é a causa direta da miotonia do músculo esquelético.

Relação com sintomas oculares:

  • Catarata: Acredita-se que a desregulação do splicing das proteínas do cristalino cause a opacidade granular policromática característica (tipo Vogt).
  • Distrofia endotelial de Fuchs: A expansão de CTG no gene DMPK causa disfunção das células endoteliais da córnea por meio de toxicidade do RNA. É uma via diferente da expansão do gene TCF4 (principal causa de FECD isolada).
  • Hipotonia ocular: A produção de humor aquoso pode diminuir devido a um distúrbio miogênico do corpo ciliar. Alguns estudos encontraram descolamento do corpo ciliar em todos os pacientes com DM1, sugerindo ser a etiologia da hipotonia ocular.
  • Miose: Acredita-se que seja causada por um distúrbio do músculo liso dilatador da pupila.

Diferença do DM2: No DM2, formam-se focos de RNA a partir de uma sequência de 4 bases com expansão CCTG. A catarata ocorre tanto no DM1 quanto no DM2, mas no DM2, a frequência de complicações sistêmicas como distúrbios de condução cardíaca e declínio cognitivo é menor e a gravidade tende a ser mais leve do que no DM1.


7. Pesquisas mais recentes e perspectivas futuras (relatórios em fase de pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas mais recentes e perspectivas futuras (relatórios em fase de pesquisa)”

Oligonucleotídeos antissenso (ASO) direcionados ao RNA repetitivo CUG estão sendo estudados. Modelos animais mostraram melhora da miotonia e correção de anormalidades de splicing. A aplicação em sintomas oculares é esperada para pesquisas futuras.

Abordagens para editar diretamente a região de expansão de repetição CTG estão sendo exploradas. Ainda em fase de pesquisa em nível celular e modelos animais.

Pesquisa relacionada à distrofia endotelial corneana de Fuchs

Seção intitulada “Pesquisa relacionada à distrofia endotelial corneana de Fuchs”

A base molecular comum entre DM1 e FECD está se tornando clara. A triagem de FECD em portadores de mutação DMPK e a busca por alvos terapêuticos comuns estão em andamento.


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