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Retina e vítreo

Papilopatia diabética

Papilopatia Diabética (Diabetic Papillopathy; DP) é um edema do disco óptico relativamente raro que ocorre em pacientes diabéticos. Foi relatado pela primeira vez em 1971 por Lubow e Makley em um paciente jovem com DM tipo 1. A incidência é baixa, cerca de 0,5%, mas ocorre em todas as faixas etárias, tanto no tipo 1 quanto no tipo 2.

Acredita-se que a essência da DP seja isquemia leve e reversível na região da camada pré-laminar do disco óptico (ONH) 2). Como parte do espectro da isquemia papilar, também foi proposta a ideia de que existe um espectro contínuo desde edema papilar sem disfunção até infarto franco de NA-AION 2).

A característica da DP é apresentar edema papilar acentuado, mas com impacto mínimo na acuidade visual e no campo visual. O defeito pupilar aferente relativo (RAPD) é apenas leve, e geralmente não se observa defeitos graves de campo visual 2). O edema papilar desaparece espontaneamente e quase não deixa atrofia óptica 2).

Alguns autores consideram a DP como uma forma de NA-AION, mas sua posição fisiopatológica ainda não foi concluída. O diagnóstico é de exclusão, sendo necessária a diferenciação de outras doenças (ver seção “Diagnóstico e Métodos de Exame”).

Q A papilopatia diabética está relacionada à gravidade da retinopatia diabética?
A

Não há relação clara. A DP pode ocorrer sem retinopatia diabética (RD). Por outro lado, relatos indicam que 63-80% dos casos apresentam RD concomitante, portanto a coexistência é frequente. Não foi encontrada correlação entre a gravidade da RD e a ocorrência de DP 1).

Imagem de Papilopatia Diabética
Imagem de Papilopatia Diabética
Ji Min Choi; Hye Jin Lee; Dae Joong Ma. Swept-source optical coherence tomography angiography of diabetic papillopathy: a case report. BMC Ophthalmol. 2020 May 15; 20:194. Figure 2. PMCID: PMC7229636. License: CC BY.
Papilopatia diabética. a A fotografia de fundo revelou um disco óptico edemaciado, hemorragias em estilhaço e vasos dilatados sobre o disco óptico. b A angiografia fluoresceínica mostrou hiperfluorescência precoce devido a vazamentos de fluoresceína dos vasos do disco. c A imagem de B-scan exibiu sinais de fluxo sanguíneo na camada de fibras nervosas da retina espessada do disco óptico e nenhum sinal de fluxo acima da interface vitreorretiniana (VRI, linha tracejada branca). d A imagem da lâmina VRI correspondente (entre as linhas tracejadas branca e vermelha em c) não representou fluxo de sinal.

Muitos pacientes são assintomáticos, sendo descobertos incidentalmente durante exames oftalmológicos de rotina para diabetes. Mesmo quando há queixas, os sintomas são leves.

  • Assintomático: A maioria não apresenta sintomas subjetivos.
  • Visão turva: Pode ser relatada por alguns pacientes.
  • Diminuição da acuidade visual (leve): Frequentemente melhora sem deixar perda visual significativa.

A discrepância entre o grau de edema do disco óptico e seu impacto na acuidade visual e campo visual é característica da DP. Abaixo estão os principais achados clínicos da DP.

Item do AchadoCaracterística
Edema do disco ópticoHiperêmico, dilatação vascular superficial
Acuidade visual inicial20/20 a 20/200
RAPDApenas leve
Anomalia na visão de coresGeralmente ausente
Campo visualApenas alargamento do ponto cego
Edema papilar persistenteDesaparece espontaneamente após no máximo 12 meses

Vasos sanguíneos minúsculos dilatados na superfície da papila óptica são observados em cerca de 50% dos casos. Essa dilatação vascular superficial da papila não se estende para o vítreo, sendo importante distingui-la da neovascularização (NVD) na retinopatia diabética proliferativa.

O edema macular (EM) está presente em mais de 50% dos casos 1). Além disso, a presença de disco óptico congestionado (papila pequena e apertada) no olho contralateral é frequentemente relatada 2). O edema papilar geralmente persiste por até 12 meses e depois desaparece espontaneamente, deixando pouca ou nenhuma atrofia do nervo óptico 2).

No caso 1 relatado por Arapi et al. (2021) (mulher de 60 anos, DM tipo 2, HbA1c 10,9%), observou-se edema papilar grave com hemorragia em estilhaço no olho direito, acuidade visual 6/360. Após 7 semanas de tratamento, a acuidade visual melhorou para 20/30 1).

A patogênese da DP não é completamente compreendida, mas acredita-se que a microangiopatia diabética seja a base. Ocorre tanto no diabetes tipo 1 quanto no tipo 2.

Os principais fatores de risco são os seguintes:

  • Controle glicêmico ruim: Relatado em casos com HbA1c elevada (por exemplo, HbA1c 10,9%, 11,2%) 1).
  • Controle glicêmico rápido: A melhora rápida da glicemia, como no início recente de insulina, acredita-se que contribua para o desenvolvimento da doença.
  • Disco óptico pequeno (congestionado): O acúmulo de fibras nervosas dentro do disco aumenta o risco de compressão vascular 2).
  • Drusas do disco óptico: Depósitos anormais dentro do disco óptico são apontados como fator de risco.

O DM é citado como fator de risco para NA-AION, e DP e NA-AION podem ter uma base patológica comum 2).

Q Baixar o açúcar no sangue rapidamente aumenta o risco de desenvolver?
A

O controle glicêmico rápido (como início de insulina) é considerado um fator contribuinte para o desenvolvimento de DP. Acredita-se que a queda abrupta da glicose cause acúmulo de fluido ao redor do disco óptico, levando ao edema de papila. O acompanhamento oftalmológico é importante ao iniciar a insulinoterapia.

DP é um diagnóstico de exclusão. Deve atender aos seguintes critérios diagnósticos e excluir outras doenças 2).

Critérios Diagnósticos para DP (Salvetat et al. 2023) 2):

  • Presença de diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2
  • Edema de papila unilateral ou bilateral (hiperêmico, dilatação de capilares superficiais)
  • Apenas defeito pupilar aferente relativo (RAPD) leve
  • Ausência de defeito grave de campo visual
  • Exclusão de doenças inflamatórias e hipertensão intracraniana
  • Angiografia fluoresceínica (FA/FFA): Na DP, o extravasamento muito precoce (extravasamento de fluoresceína dos vasos dilatados na superfície do disco óptico) é característico 2). A ausência de atraso no enchimento ajuda a diferenciar da NA-AION 1). Na neovascularização do disco, observa-se extravasamento aleatório para o vítreo, enquanto na DP não há extensão para o vítreo.
  • OCT (Tomografia de Coerência Óptica): Útil para confirmar o aumento da espessura da camada de fibras nervosas da retina (RNFL) e edema macular (EM) 1).
  • Autofluorescência de fundo (FAF): Mostra hipoautofluorescência peripapilar 1).
  • Exame de campo visual: Apenas o aumento do ponto cego é típico. Se houver hemianopsia horizontal, suspeitar de NA-AION.
  • RM: Considerar a realização em edema de papila bilateral para excluir hipertensão intracraniana.

Abaixo estão os pontos de diferenciação entre DP e NA-AION.

Ponto de diferenciaçãoPapilopatia diabéticaNA-AION
RAPDLeve/ausenteClaro
Defeito de campo visualApenas aumento do ponto cegoHemianopsia horizontal
Achados da angiografia fluoresceínica (FA)extravasamento precoceatraso no enchimento presente
Q Qual a diferença da NA-AION (neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica)?
A

A DP caracteriza-se por RAPD negativo, defeito de campo visual mínimo e melhora espontânea. Na NA-AION, ocorre hemianopsia horizontal, RAPD evidente e atrofia do nervo óptico. Na FA, a DP mostra extravasamento muito precoce da superfície do disco, enquanto a NA-AION mostra atraso no enchimento2). Ambas são consideradas condições contínuas no espectro da isquemia da ONH2).

A observação é a base. A DP frequentemente remite espontaneamente em 3–6 meses (até 12 meses), com regressão do edema de papila enquanto a visão é mantida.

Observação

Primeira escolha: Muitos casos de edema de papila desaparecem espontaneamente com 3–6 meses de observação.

Exames periódicos: Acompanhar a evolução do edema de papila e do edema macular com OCT e angiografia fluoresceínica.

Controle glicêmico: Manter controle estável, evitando flutuações glicêmicas abruptas.

Terapia com Esteroides

Injeção subtenoniana (STTAI): Usar triancinolona 40 mg/mL. Risco de aumento da pressão intraocular menor que IVTA. Relato de administração de betametasona subtenoniana reduzindo o curso natural de 5 meses para 3 semanas1). IVTA (injeção intravítrea) tem risco de aumento da PIO cerca de 3 vezes maior que STTAI (>21 mmHg).

Anti-VEGF + Esteroides Combinados

IAI (aflibercept 2 mg/0,05 mL) + STTAI (TA 40 mg/mL): Relato de uso combinado em casos graves1).

Efeito: Edema de papila e visão melhoram em 5–7 semanas. Mantêm-se estáveis durante acompanhamento de 12 meses 1).

Outros: Há relatos de terapia anti-VEGF isolada com ranibizumabe ou bevacizumabe.

Arapi et al. (2021) realizaram terapia combinada de IAI (aflibercepte 2mg) e STTAI (triancinolona 40mg/mL) em 2 casos de DP grave 1). Caso 1 (HbA1c 10,9%) melhorou de 6/360 no olho direito para 20/30 após 7 semanas, e olho esquerdo de 6/60 para 20/25 após 5 semanas. Caso 2 (HbA1c 11,2%) recuperou de 6/120 no olho esquerdo para 20/30 após 5 semanas. Ambos apresentaram evolução estável durante 12 meses de seguimento.

Q A doença pode curar espontaneamente sem tratamento?
A

A maioria dos casos apresenta remissão espontânea em 3–6 meses (até 12 meses), e 92% mantêm a visão. A observação é a primeira escolha. Em casos graves ou com edema macular significativo, o tratamento com esteroides ou anti-VEGF pode acelerar a recuperação 1).

A patogênese da DP baseia-se na microangiopatia diabética. Os principais mecanismos propostos atualmente são:

  • Microangiopatia peripapilar (epi/peripapillary microangiopathy): Danos aos capilares ao redor da papila aumentam a permeabilidade vascular, causando edema de papila 1).
  • Distúrbio circulatório laminar profundo e interrupção do fluxo axonal: O fluxo sanguíneo comprometido ao nível da lâmina cribrosa prejudica o transporte axonal, resultando em inchaço das fibras do nervo óptico 1).
  • Acúmulo de água devido ao controle rápido da glicemia: A queda abrupta da glicose sanguínea altera a pressão osmótica tecidual, acumulando água ao redor da papila óptica. Acredita-se que isso comprima a lâmina cribrosa e reduza o fluxo axonal.
  • Isquemia leve e reversível da ONH pré-laminar: A DP está na extremidade leve do espectro de isquemia da ONH 2). Há uma visão que a considera uma condição contínua que pode evoluir para NA-AION se agravar 2).
  • Interação entre citocinas inflamatórias e VEGF: A produção excessiva de VEGF na microangiopatia diabética contribui para o aumento da permeabilidade vascular 1).

7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)”

Estabelecimento da Terapia Combinada Anti-VEGF + Esteroides

Seção intitulada “Estabelecimento da Terapia Combinada Anti-VEGF + Esteroides”

A terapia combinada anti-VEGF (aflibercept, ranibizumab, bevacizumab) com esteroides para papilopatia diabética (DP) tem mostrado eficácia em casos graves, conforme relatos de caso. Arapi et al. demonstraram que a terapia combinada promove a recuperação visual e a regressão do edema de papila em DP grave 1). No entanto, atualmente ainda se limita a relatos de caso, sendo necessários estudos prospectivos de grande escala para padronizar o protocolo de tratamento 1).

Salvetat et al. (2023) posicionaram a DP como a extremidade leve do espectro de isquemia do ONH, e discutiram a possibilidade de DP e NA-AION formarem um grupo de doenças patologicamente contínuas 2). Essa perspectiva é importante para identificar fatores prognósticos da DP e determinar o momento da intervenção terapêutica. O desenvolvimento de biomarcadores e indicadores de diagnóstico por imagem que definam os limites entre ambos é um desafio futuro 2).


  1. Arapi I, Neri P, Giovannini A, Grezda A. Combined therapy with intravitreal aflibercept and subtenon corticosteroids in eyes with severe diabetic papillopathy: two case reports. J Med Case Reports. 2021;15:518.
  2. Salvetat ML, et al. Non-Arteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy. Vision. 2023;7(4):72.

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