A Maculopatia Aguda da Camada Média Parafoveal (Paracentral Acute Middle Maculopathy; PAMM) foi proposta pela primeira vez como uma entidade clínica independente por Sarraf et al. em 2013 10). É uma doença que afeta a camada nuclear interna (INL) da retina devido à isquemia aguda do plexo capilar intermediário (ICP) ou do plexo capilar profundo (DCP).
A retina possui três camadas de plexos capilares dispostos em série: superficial (SCP), intermediário (ICP) e profundo (DCP). A PAMM é causada por isquemia do ICP e DCP, sendo mais frequente que a maculopatia aguda (AMN). A PAMM frequentemente acompanha outras doenças vasculares da retina, mas também pode ocorrer de forma isolada.
A PAMM pode surgir como um achado inicial da oclusão da artéria central da retina (CRAO). A PAMM associada à CRAO sugere uma relação com acidente vascular cerebral (AVC), sendo recomendado o encaminhamento imediato a um centro de AVC 9).
Características da PAMM
Ano de descoberta: 2013, proposto por Sarraf et al. 10).
Local da lesão: Camada nuclear interna da retina (INL). Causada por isquemia da ICP e DCP.
Frequência: Mais comum que a maculopatia aguda (AMN).
Acuidade visual: Frequentemente preservada entre 20/20 e 20/30.
Comparação com AMN
PAMM: Banda hiperrefletiva na INL. Isquemia da ICP e DCP. Mais comum.
AMN: Distúrbio da camada granular externa e camada de fotorreceptores. Isquemia da DCP. Frequentemente associado a CRAO.
Pontos em comum: Escotoma paracentral. Banda hiperrefletiva na OCT. Associação com doenças sistêmicas.
QQual a diferença entre PAMM e AMN (maculopatia aguda)?
A
PAMM afeta principalmente a camada nuclear interna da retina (isquemia ICP/DCP), enquanto AMN afeta a camada granular externa (isquemia DCP). PAMM é mais frequente que AMN e está associada a diversas doenças sistêmicas. A OCT permite a diferenciação entre ambas.
Os sintomas subjetivos típicos da PAMM são os seguintes.
Escotoma paracentral agudo: O sintoma mais característico. Percebido como um defeito de campo visual fora da fóvea.
Diminuição da acuidade visual: Geralmente leve, tipicamente 20/20 a 20/30. Se a lesão afetar a fóvea, a diminuição é mais acentuada.
Metamorfopsia: O paciente pode queixar-se de ver objetos distorcidos.
Os sintomas são caracterizados por início agudo, com o paciente percebendo subitamente uma anormalidade no campo visual. No curso natural, os sintomas frequentemente persistem.
Os achados de SD-OCT são centrais para o diagnóstico de PAMM. Na fase aguda, uma banda hiperrefletiva aparece na camada nuclear interna (INL), progredindo para atrofia e afinamento da INL na fase crônica.
Os padrões de lesão da PAMM são classificados em três tipos morfológicos 2).
Padrão
Morfologia
Vaso correspondente
Arteriolar
Lesões puntiformes a pequenas
Periarteriolar
Globular
Lesão globular
Isquemia de ICP
Fern-like
Lesão extensa em folha de samambaia
Isquemia de DCP
O padrão semelhante a samambaia (Fern-like) se espalha ao longo do DCP, indicando a isquemia mais extensa. Esse padrão é comum em casos graves 2).
A OCT en face permite compreender a extensão e a morfologia da lesão em duas dimensões. Um achado de fluorescência intensa chamado Hiperfluorescência Coriorretiniana Vítrea (VCH) pode ser detectado na OCT en face. Acredita-se que esse achado reflita hiperemia reativa de origem vítrea e coroidal, sendo útil para avaliação dinâmica da lesão 1).
A OCTA permite visualizar diretamente os defeitos de fluxo sanguíneo nas redes capilares do ICP e DCP.
QPor que a PAMM é importante mesmo sem diminuição da acuidade visual?
A
A PAMM persiste como escotoma paracentral, prejudicando atividades diárias como leitura e direção. Além disso, podem existir doenças sistêmicas graves subjacentes (como CRAO, doença falciforme, etc.), sendo importante como oportunidade para investigação sistêmica (veja a seção «Causas e Fatores de Risco»).
A PAMM está associada a várias doenças sistêmicas. As principais causas e doenças relacionadas são mostradas abaixo.
Associação com doenças vasculares e sistêmicas:
Hipertensão: A doença mais frequentemente associada à PAMM. A prevalência de hipertensão em pacientes com PAMM chega a 89,9%, significativamente maior em comparação com 16,7% no grupo controle2).
Oclusão da artéria central da retina (OACR): A PAMM pode aparecer como achado inicial da OACR. Devido à associação com doença isquêmica ocular grave, recomenda-se visita a um centro de AVC9).
Doença falciforme (DF):PAMM foi relatada em DF tipo HbSS. Há casos que surgiram após a descontinuação da hidroxiureia, sendo uma complicação importante no manejo da DF6).
Retinopatia por HIV: PAMM com imunodeficiência grave e contagem de CD4 de 45 foi relatada. Pode ocorrer dano simultâneo ao SCP, ICP e DCP 8).
Dengue: PAMM associado à trombocitopenia (77.000/μL) na fase aguda foi relatado 5).
Enxaqueca: PAMM ocorrendo após crise de enxaqueca foi relatado. A exclusão de arterite de células gigantes (GCA) é importante 3).
Angiografia coronária: PAMM ocorrendo após o procedimento foi relatado, sugerindo associação com embolia iatrogênica 7).
PAMM em jovens sem doença de base clara também foi relatado. Em um estudo de 5 mulheres com idade média de 28,6 anos, foi sugerida associação com resfriado (3 casos), gravidez (1 caso) e uso de anticoncepcional oral (2 casos), e aspirina 100 mg foi administrada 4).
O diagnóstico de PAMM é baseado na combinação de achados clínicos e exames de imagem. A investigação sistêmica também é importante para identificar a doença de base.
SD-OCT: Eixo principal do diagnóstico. A banda hiperrefletiva da INL na fase aguda é um achado de alta sensibilidade e especificidade. Na fase crônica, permanece afinamento da camada nuclear interna. Útil para classificação dos 3 padrões (arteriolar/globular/fern-like)2).
En face OCT: Avalia a extensão e morfologia da PAMM bidimensionalmente. Usado para detecção e monitoramento temporal da VCH1).
OCTA: Pode avaliar quantitativamente defeitos de fluxo sanguíneo nas redes capilares da ICP e DCP. Excelente para compreender a extensão e o padrão da lesão.
Síndrome Antifosfolípide: Terapia anticoagulante e aspirina.
Doença falciforme: Hidroxiureia contínua, casos graves com transfusão de troca de hemácias.
Intervenção por caso
PAMM idiopática juvenil: A aspirina 100 mg foi administrada em alguns casos.
Relacionado à dengue: Melhora da AV (6/12 → 6/9) foi relatada com prednisolona 40 mg/dia.
Relacionado à DCF: Há casos em que a melhor acuidade visual corrigida (BCVA) de 20/20 a 20/30 foi obtida após exsanguineotransfusão de hemácias (RBCX).
Em um caso de PAMM associado à oclusão da veia central da retina devido à síndrome antifosfolípide, a visão 20/20 foi alcançada após 7 meses de tratamento incluindo aspirina. As alterações de VCH durante o curso foram confirmadas por OCT1).
Em casos de PAMM associada à doença falciforme (tipo HbSS), foi relatada ocorrência após a descontinuação da hidroxiureia. Após a transfusão de troca de hemácias (RBCX), obteve-se melhor acuidade visual corrigida de 20/20 a 20/30. Isso sugere a importância do manejo contínuo da hidroxiureia para a DFC 6).
Em casos de PAMM associada à dengue, foi administrada prednisolona 40 mg/dia na fase aguda com trombocitopenia, resultando em melhora da visão (6/12 para 6/9) 5).
Em PAMM idiopática juvenil (5 mulheres, idade média de 28,6 anos), aspirina 100 mg foi administrada em casos sem doença de base identificada. Foi sugerida associação com resfriado, gravidez e anticoncepcionais orais 4).
QA PAMM desaparece espontaneamente?
A
O escotoma paracentral causado pela lesão é frequentemente permanente. A acuidade visual geralmente é relativamente preservada, mas não há evidências estabelecidas de que a lesão regrida espontaneamente sem tratamento da doença de base. A identificação e o tratamento precoces da doença de fundo são importantes.
6. Fisiopatologia e Mecanismo Detalhado de Ocorrência
O mecanismo de ocorrência da PAMM é compreendido com base nas características anatômicas do plexo capilar retiniano e nas diferenças na suscetibilidade à isquemia.
Estrutura em Camadas do Plexo Capilar Retiniano e Suscetibilidade à Isquemia
Os plexos capilares da retina (SCP → ICP → DCP) estão dispostos em série. Nessa estrutura, o DCP mais periférico apresenta a menor pressão de perfusão. Foi proposto o conceito de que a redução da pressão de perfusão do DCP causa isquemia na área de watershed (zona de fronteira vascular) 7).
A partir da análise de casos de PAMM após angiografia coronariana, foi proposta uma cascata isquêmica no ICP e DCP. Acredita-se que microêmbolos decorrentes do procedimento ou flutuações transitórias da pressão arterial causem insuficiência de perfusão do DCP, levando à isquemia da camada nuclear interna 7).
Acredita-se que o VCH (Hiperfluorescência Vitreocoriorretiniana) detectado na OCT en face reflita hiperemia reativa do vítreo e coroide à isquemia retiniana. No caso de Otero-Marquez et al., os achados de VCH mudaram ao longo do tratamento, tornando-se um indicador de monitoramento da lesão 1).
Na doença falciforme, eritrócitos deformados obstruem os capilares da retina. A hidroxiureia suprime a falcização, portanto sua suspensão pode desencadear o início da doença 6). Especialmente o DCP é um local de predileção para isquemia na DFC.
O vasoespasmo e a disfunção endotelial associados à enxaqueca podem desencadear PAMM3). Quanto à relação entre PAMM idiopática juvenil e resfriado, suspeita-se de vasculite e distúrbios de coagulação relacionados à infecção viral, mas o mecanismo detalhado ainda não foi elucidado 4).
7. Pesquisas recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)
O VCH pode refletir a atividade da doença e a resposta ao tratamento.
Otero-Marquez et al. (2023) relataram um caso de PAMM associado à oclusão da veia central da retina relacionada à síndrome antifosfolípide, onde as alterações temporais do VCH com OCT en face foram úteis para monitorar a lesão. Após 7 meses, a acuidade visual de 20/20 foi alcançada e a regressão do VCH foi confirmada 1).
O uso do VCH como indicador de avaliação quantitativa é uma direção proeminente no manejo futuro da PAMM.
A possível utilidade da classificação em três padrões (arteriolar/globular/fern-like) na avaliação da patologia e prognóstico está sendo estudada.
Jabbehdari & Uwaydat (2023) relataram casos consecutivos de PAMM bilateral e mostraram que o padrão semelhante a samambaia reflete isquemia extensa ao longo do DCP. Eles também revelaram que a prevalência de hipertensão em pacientes com PAMM chega a 89,9% 2).
A análise sistemática da relação entre classificação de padrões, doença de base e prognóstico é uma tarefa futura.
Espera-se que o desenvolvimento de novos medicamentos para a doença falciforme tenha um efeito indireto na prevenção e tratamento da PAMM associada à SCD.
Parikh et al. (2022) relataram que a realização de transfusão de troca de hemácias (RBCX) em casos de PAMM associada à SCD tipo HbSS contribuiu para a manutenção da melhor acuidade visual corrigida de 20/20 a 20/30. Eles também mencionaram a possibilidade de prevenção de complicações retinianas através do desenvolvimento de novos medicamentos para SCD 6).
Elucidação do mecanismo da PAMM tardia associada ao HIV
O desenvolvimento de PAMM em estado de imunodeficiência grave é considerado uma nova condição patológica na retinopatia pelo HIV.
Kanakis et al. (2023) relataram uma lesão semelhante a PAMM em um paciente com HIV com contagem de CD4 de 45, na qual SCP, ICP e DCP foram simultaneamente afetados, descrevendo-a como lesões tardias semelhantes a PAMM na retinopatia por HIV8). O acompanhamento após a recuperação imunológica é considerado importante.
Otero-Marquez O, Anikina E, Rodríguez-Ratón A, et al. Vitreous Chorioretinal Hyperfluorescence in PAMM associated with CRVO in antiphospholipid syndrome. Eur J Ophthalmol. 2023;33:NP58-NP63.
Jabbehdari S, Uwaydat SH. Bilateral paracentral acute middle maculopathy: a case series with review of literature. J VitreoRetin Dis. 2023;7:233-239.
Milad D, Bhambra S, Wons J, et al. Paracentral acute middle maculopathy after migraine. Case Rep Ophthalmol. 2023;14:96-102.
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Parikh R, Dahr SS, Bhatwadekar AD, et al. Paracentral acute middle maculopathy in sickle cell disease. Am J Ophthalmol Case Rep. 2022;27:101589.
Schmitt A, Sheth V, Bhagat N. Paracentral acute middle maculopathy following coronary angiography. Am J Ophthalmol Case Rep. 2022;26:101463.
Kanakis M, Georgalas I, Kozobolis V, Lekkou A, Karmiris E, Stavrakas P. Late PAMM-Like Lesions in a Patient with HIV Retinopathy. Case Rep Ophthalmol. 2023;14(1):23-28. doi:10.1159/000528408. PMID:36644617; PMCID:PMC9837467.
American Academy of Ophthalmology. Retinal Artery Occlusion Preferred Practice Pattern. AAO; 2020.
Sarraf D, Rahimy E, Fawzi AA, et al. Paracentral acute middle maculopathy: a new variant of acute macular neuroretinopathy associated with retinal capillary ischemia. JAMA Ophthalmol. 2013;131(10):1275-1287. doi:10.1001/jamaophthalmol.2013.4056. PMID:23929382.
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