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Oftalmologia pediátrica e estrabismo

Celulite Orbitária

A celulite orbitária é uma infecção bacteriana dos tecidos moles intraorbitários atrás do septo orbitário (membrana fibrosa anterior à pálpebra). É considerada uma emergência oftalmológica.

A gravidade da infecção orbitária é avaliada pela classificação de Chandler (1970).

Chandler I–III

Grau I (celulite periorbitária): Edema da pálpebra e tecidos moles circundantes, limitado anteriormente ao septo orbitário.

Grau II (celulite orbitária): Propagação da infecção para o tecido adiposo intraorbitário, com proptose e distúrbio da motilidade ocular.

Grau III (abscesso subperiosteal): Formação de abscesso entre o periósteo da parede orbitária e a parede orbitária.

Chandler IV–V

Grau IV (abscesso orbitário): Formação de abscesso dentro da gordura orbitária, com proptose grave e restrição completa dos movimentos oculares, além de diminuição significativa da acuidade visual.

Grau V (Trombose do Seio Cavernoso): Propagação da infecção para o intracraniano. Achados bilaterais e alteração da consciência, sendo o tipo mais grave.

Esta doença é comum em crianças, mas também ocorre em adultos jovens. Devido às relações anatômicas ao redor da órbita, está intimamente relacionada à sinusite (especialmente etmoidite). A resposta imunológica em crianças é diferente da dos adultos, e a infecção se espalha facilmente para a órbita através da lâmina papirácea fina adjacente ao seio etmoidal. Para confirmar a associação com os seios da face, é recomendável realizar exame de imagem precocemente se houver suspeita.

Q Qual a diferença entre celulite pré-septal (celulite palpebral) e celulite orbitária?
A

A celulite pré-septal é uma infecção limitada à frente do septo orbitário (lado palpebral), sem proptose, distúrbio de motilidade ocular ou diminuição da acuidade visual. A celulite orbitária é uma infecção que se estende para dentro da órbita atrás do septo, e esses sinais estão presentes. A tomografia computadorizada é útil para diferenciá-las.

  • Edema e eritema palpebral: Sintomas que aparecem mais precocemente, frequentemente com piora rápida.
  • Dor ocular e cefaleia: Devido ao aumento da pressão intraorbitária e inflamação.
  • Diplopia (visão dupla): Aparece com o distúrbio de motilidade ocular.
  • Diminuição da acuidade visual: Ocorre por compressão do nervo óptico ou comprometimento do fluxo sanguíneo. É um sinal grave.
  • Febre: Surge como resposta inflamatória sistêmica.

Achados clínicos (achados confirmados pelo médico ao exame)

Seção intitulada “Achados clínicos (achados confirmados pelo médico ao exame)”

Em um estudo de 9 casos de celulite orbitária por MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), foram registrados edema palpebral 88,9%, dor 88,9%, proptose 66,7%, limitação da motilidade ocular 66,7% e febre 55,5%. 1)

  • Proptose: Devido ao aumento do conteúdo orbitário por abscesso ou edema. Quanto maior o grau, mais grave.
  • Distúrbio de motilidade ocular: Devido à infiltração inflamatória direta dos músculos extraoculares ou comprometimento da inervação. A recuperação da paralisia da motilidade ocular é a mais lenta, e alguns casos levaram 18 meses para se recuperar. 3)
  • Edema palpebral e quemose (edema conjuntival): devido a distúrbios de drenagem venosa e linfática.
  • Aumento da pressão intraocular e edema de papila: sinais que ameaçam a função visual devido ao aumento da pressão intraorbital.
  • Retração palpebral em neonatos: na celulite orbitária neonatal, a retração palpebral é um sinal precoce importante. 2)

Quanto aos valores laboratoriais, foram relatados mediana de PCR 178 mg/L e mediana de leucócitos 17,9×10⁹/L. 1)

Q A diminuição da acuidade visual requer cirurgia de emergência?
A

A diminuição da acuidade visual é um sinal perigoso indicando compressão do nervo óptico, com alta probabilidade de necessitar de intervenção urgente. No entanto, a indicação cirúrgica não se baseia apenas na diminuição da acuidade visual, mas sim no tamanho do abscesso, localização, idade e resposta ao tratamento antibiótico, avaliados por TC. Consulte a seção “Métodos de Tratamento Padrão” para mais detalhes.

Existem três vias principais para o desenvolvimento da celulite orbitária.

  • Propagação direta da sinusite: via mais comum. 91% das infecções orbitárias em crianças são decorrentes de sinusite (especialmente etmoidite). 7) A infecção se espalha facilmente para a órbita através da lâmina papirácea fina. Veias sem válvulas também contribuem para a disseminação hematogênica direta. 7)
  • Infecção hematogênica (bacteremia): pode ocorrer em indivíduos imunocomprometidos e neonatos através da corrente sanguínea.
  • Infecção exógena: devido a trauma periorbitário, cirurgia ocular ou propagação direta de tecidos adjacentes.
  • Espécies bacterianas principais: Staphylococcus aureus (S. aureus), Streptococcus pyogenes (S. pyogenes) e Streptococcus pneumoniae (S. pneumoniae) são as bactérias causadoras típicas.
  • MRSA: tem aumentado nos últimos anos. Em Taiwan, a proporção de MRSA aumentou de 14,5% para 37,5%, e na Austrália foi relatada como 28,6%. 1) Cepas produtoras da toxina PVL (Panton-Valentine leukocidin) estão fortemente associadas à formação de abscesso. 1)
  • Imunocomprometidos (HOC; celulite orbitária hematogênica): Vários patógenos estão envolvidos, como Candida, MRSA, Klebsiella, Enterococcus e fungos zigomicetos. 3)
  • Neonatos: Predomina o MSSA (Staphylococcus aureus sensível à meticilina), mas há risco de bacteremia e meningite. 2)

Infecção do trato respiratório superior, sinusite, trauma facial, infecção dentária e estados de imunocomprometimento (incluindo infecção por HIV) são os principais fatores de risco. 8)

Q Por que a infecção se espalha dos seios da face para o olho?
A

A parede medial da órbita (lâmina cribriforme) é muito fina e adjacente ao seio etmoidal. Além disso, existem veias sem válvulas (veias valvuladas) entre os seios da face e a órbita, facilitando a disseminação da infecção em ambas as direções. 7) Portanto, na presença de etmoidite, a infecção pode se espalhar diretamente para o interior da órbita.

ExameUso/Características
TC (com contraste)Primeira escolha. Avalia presença, tamanho e localização de abscesso subperiosteal.
RM (sequência STIR)Avaliação detalhada de tecidos moles, osteomielite e lesões intracranianas
Ultrassonografia modo BExame auxiliar quando se deseja evitar exposição à radiação

A tomografia computadorizada (TC) é o exame básico para o diagnóstico, recomendando-se cortes com espessura ≤3 mm incluindo planos coronais. A TC com contraste permite identificar abscesso subperiosteal e abscesso orbitário, além de avaliar sinusite associada.

A RM (especialmente a sequência STIR) possui excelente contraste de tecidos moles e pode detectar osteomielite mesmo nos primeiros 12 dias de início, quando a TC não consegue. 4) Também é essencial para avaliar complicações intracranianas (abscesso epidural, abscesso cerebral). A DWI (difusão) é útil para confirmar a formação de abscesso. 1)

  • Exames de sangue: Avaliar leucócitos (WBC), PCR e procalcitonina (PCT). No relato de Coleombe et al., foram registrados WBC 17700/μL, PCR 107 mg/L e PCT 5,04 ng/mL. 7)
  • Hemoculturas: A taxa de positividade na celulite orbitária comum é de apenas 2–7,9%, mas em imunocomprometidos (HOC) chega a 75%. 3)
  • Sequenciamento de nova geração (NGS): Pode identificar o patógeno em 48 horas, sendo útil mesmo em casos difíceis com cultura convencional. 3)

As doenças que requerem diagnóstico diferencial incluem:

  • Celulite pré-septal (celulite palpebral): Limitada à região anterior ao septo, sem proptose ou distúrbio de motilidade ocular. 8)
  • Inflamação orbitária idiopática (pseudotumor): Inflamação orbitária não infecciosa, responsiva a esteroides.
  • Tumor orbitário e linfoma: Em casos recorrentes e refratários ao tratamento, é necessário excluir tumor. Em casos de recidiva com culturas negativas, considerar a possibilidade de linfoma maligno. 9)
  • Oftalmopatia tireoidiana e pseudotumor orbitário: bilateral, curso crônico, sem febre, auxiliando no diagnóstico diferencial.

A celulite orbitária requer internação e administração de antibióticos intravenosos como regra. A colaboração com otorrinolaringologia é essencial, e a drenagem cirúrgica é realizada quando necessário.

O tratamento empírico inicial baseia-se em:

  • Ceftriaxona (100 mg/kg/dia) + Vancomicina: Cobertura ampla incluindo MRSA e bactérias Gram-negativas. Essencial em casos graves com abscesso subperiosteal ou em áreas endêmicas de MRSA. 4)
  • Cefotaxima/Ceftriaxona + Flucloxacilina → Vancomicina: Após confirmação de MRSA, mudar para vancomicina (± clindamicina). 1)
  • Adição de Metronidazol: Quando há suspeita de bactérias anaeróbias (disseminação intracraniana via seio frontal). 4)
  • Ceftazidima + Clindamicina: Quando é necessária cobertura para Pseudomonas. 6)
  • Neonatos (Vancomicina 15 mg/kg + Meropenem 40 mg/kg 3 vezes ao dia): Cobre tanto MSSA quanto bactérias Gram-negativas. Necessário mínimo de 3 semanas de administração; interrupção antes de 3 semanas aumenta risco de falha. 2)

A transição para terapia intravenosa ambulatorial (OPAT) é considerada após estabilização clínica, e a troca para via oral pode levar um longo período (até 7 semanas). 4)

Indicações Cirúrgicas

Abscessos grandes: Se o abscesso subperiosteal for grande (ex. ≥20 mm), considerar drenagem ativa.

Comprometimento visual: Pode ser indicação de emergência se houver diminuição da acuidade visual ou defeito pupilar aferente.

Falta de resposta a antibióticos: Se houver piora ou ausência de melhora após antibioticoterapia adequada.

Extensão intracraniana: Se houver disseminação para abscesso epidural ou abscesso cerebral.

Técnica Cirúrgica

FESS (Cirurgia Endoscópica Funcional dos Seios da Face): Drenagem de pus da sinusite. Realizada em 88,9% dos casos de MRSA. 1)

Drenagem orbitária externa: Drenagem de abscesso por incisão externa. Pode ser combinada com cirurgia endoscópica (abordagem combinada). 4)

Colaboração multidisciplinar: A cooperação entre otorrinolaringologia, oftalmologia e neurocirurgia é essencial em casos graves. 4)

A dexametasona tem sido relatada como benéfica como terapia adjuvante.

AlQahtani et al. relataram um caso de uma criança de 3 anos com infecção por MRSA e Pseudomonas aeruginosa (abscesso subperiosteal de 6,6 mm) tratada com ceftazidima e clindamicina mais 3 ciclos de dexametasona 6 mg (a cada 12h, 3 dias) com melhora dramática. 6)

Heri-Kovacs et al. relataram um caso de celulite orbitária pós-vacinação contra COVID-19 tratado com dexametasona IV 250 mg/dia por 4 dias, eficaz em casos sem sinusite concomitante. 5)

O uso de esteroides deve ser baseado na situação clínica individual, e não há protocolo de dosagem padrão.

Q Todo abscesso subperiosteal (SPA) requer cirurgia?
A

Nem todo SPA requer drenagem cirúrgica. Se o tamanho do abscesso for pequeno, a função visual estiver preservada e houver boa resposta ao tratamento antibiótico, o tratamento conservador pode ser tentado. No entanto, se houver diminuição da visão, aumento da pressão intraocular ou falta de resposta aos antibióticos, a drenagem cirúrgica deve ser considerada urgentemente.

A lâmina papirácea (lamina papyracea), que é a superfície de contato entre a órbita e os seios paranasais, forma a placa óssea da parede medial da órbita, sendo extremamente fina e propensa a perfuração. Essa característica anatômica facilita a disseminação da infecção da sinusite etmoidal para a órbita.

Entre os seios paranasais e a órbita, existem veias sem válvulas (veias valvulares) que podem disseminar a infecção hematogenicamente em ambas as direções. 7) A sinusite frontal pode causar disseminação direta para o espaço epidural e intracraniano. 4)

  • Toxina PVL (Panton-Valentine leukocidin): Toxina produzida por MRSA adquirido na comunidade, fortemente associada a lesão leucocitária e formação de abscesso. 1)
  • Disseminação intracraniana por veias sem válvulas: Via pela qual a infecção do seio frontal pode atingir a órbita e, subsequentemente, o espaço epidural e intracerebral. 7)
  • Gravidade em imunocomprometidos (HOC): Em indivíduos imunocomprometidos, pode ocorrer celulite orbitária hematogênica (HOC), envolvendo múltiplos patógenos oportunistas. 3) A recuperação da paralisia dos músculos oculares pode levar até 18 meses. 3)

7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatos em Fase de Pesquisa)”

Tendência de Aumento de MRSA e Estratégias de Tratamento

Seção intitulada “Tendência de Aumento de MRSA e Estratégias de Tratamento”

Em um estudo retrospectivo de Ang et al. com 9 casos, a mediana de internação para celulite orbitária por MRSA foi de 13,7 dias, e 100% dos casos necessitaram de intervenção cirúrgica. 1) A proporção de MRSA na celulite orbitária varia por região, aumentando em Taiwan de 14,5% para 37,5%. 1)

A otimização da seleção de antibióticos e o estabelecimento de um protocolo de tratamento inicial que considere MRSA produtor de PVL são desafios futuros.

Aplicação Diagnóstica do Sequenciamento de Próxima Geração (NGS)

Seção intitulada “Aplicação Diagnóstica do Sequenciamento de Próxima Geração (NGS)”

Tang et al. relataram 4 casos de celulite orbitária em pacientes imunocomprometidos e enfatizaram que o NGS pode identificar o patógeno dentro de 48 horas. 3)

Heri-Kovacs et al. relataram um homem de 72 anos que desenvolveu celulite orbitária (proptose de 5 mm, paralisia dos movimentos oculares) sem sinusite associada 9 dias após a segunda dose da vacina VeroCell (vacina COVID inativada). 5) Foi tratado com dexametasona IV 250 mg/dia por 4 dias e resolveu em 4 dias. O mecanismo fisiopatológico é desconhecido.

Ishak et al. relataram um caso tratado repetidamente como “celulite orbitária” com cultura negativa, que acabou sendo diagnosticado como linfoma de células B. 9) Em celulite orbitária refratária ou recorrente, deve-se suspeitar precocemente de tumor ou doença granulomatosa, sendo essencial a investigação incluindo biópsia.


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  3. Tang X, Li H. Hematogenous orbital cellulitis: a report of four cases. BMC Infect Dis. 2023;23:522.
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  5. Heri-Kovacs A, Eibenberger K, Tausch MK, et al. Orbital cellulitis following SARS-CoV-2 vaccination: a case report. Case Rep Ophthalmol. 2022;13:210-214.
  6. AlQahtani DS, Alshahrani OA, Abu AlOla MA, et al. Refractory orbital cellulitis: a management challenge. Saudi J Ophthalmol. 2021;35:261-262.
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  9. Ishak F, Siddiqa A, Chaudhry M, et al. B-cell lymphoma masquerading as recurrent orbital cellulitis. Cureus. 2024;16(10):e70759.

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