O hidrocistoma apócrino (apocrine hidrocystoma) é um tumor cístico benigno que se origina da porção secretora das glândulas sudoríparas apócrinas. Foi relatado pela primeira vez por Mehregan em 1964 e descrito como uma proliferação cística das glândulas sudoríparas apócrinas na região da cabeça e do pescoço1). Não se trata de um simples cisto de retenção de secreção, mas é considerado uma neoplasia adenomatosa das glândulas apócrinas1)5).
Na pálpebra, origina-se na glândula de Moll, uma glândula apócrina modificada. Os locais mais frequentes são couro cabeludo, face, axila, canal auditivo externo, pálpebra e virilha, áreas ricas em folículos pilosos1).
Do ponto de vista epidemiológico, é mais comum em adultos entre 30 e 70 anos, sem diferença entre os sexos1). É raro em crianças e adolescentes5). A maioria é solitária, mas, nos casos múltiplos, foi relatada associação com a síndrome de Schopf-Schulz-Passarge e a síndrome de Goltz-Gorlin2)5).
QQual é a diferença entre o hidrocistoma apócrino e o hidrocistoma écrino?
A
O hidrocistoma apócrino origina-se das glândulas apócrinas, e o hidrocistoma écrino, das glândulas écrinas. O tipo apócrino costuma ser solitário, mede 3 a 15 mm e ocorre com frequência em áreas ricas em folículos pilosos. Histologicamente, eles são diferenciados pela presença ou ausência de secreção por decapitação e de grânulos de lipofuscina.
O hidrocistoma apócrino costuma ser assintomático. Quando ocorre na pálpebra, pode causar os seguintes sintomas.
Irritação ocular, coceira e sensação de corpo estranho: aparecem de acordo com a localização da lesão.
Olho seco: pode ocorrer com lesões próximas à margem palpebral.
Problema estético: muitas vezes é percebido como uma massa azulada na pálpebra.
Ptose: lesões grandes podem causar ptose mecânica. Há relato de uma mulher de 43 anos com uma lesão orbitária de 18 × 8 mm que apresentou ptose progressiva por 2 anos2).
Lacrimejamento: lesões próximas ao ducto nasolacrimal podem vir acompanhadas de lacrimejamento3).
Aspecto: é um nódulo cístico firme, em forma de cúpula e móvel.
Cor: apresenta coloração azul-acinzentada a arroxeada. O efeito Tyndall causado por grânulos de lipofuscina é a causa do tom azulado4).
Translucidez: é semitransparente e mostra transiluminação3)4).
Tamanho: tipicamente 3–15 mm1).
Localização: ocorre nas pálpebras superiores e inferiores, sobrancelhas, canto medial e lateral, e ao redor do olho.
Localização especial: foi relatada pela primeira vez ao longo do ducto nasolacrimal3). A ocorrência intraorbitária também é rara2).
Achados de imagem (RM): aparece como uma massa cística bem delimitada, iso a hipointensa em T1 e hiperintensa em T2/STIR. Pode haver septos internos e discreto realce2).
QDevo procurar atendimento médico imediatamente se encontrar um cisto azulado?
A
Embora o hidrocistoma apócrino em si seja benigno, é preciso diferenciá-lo de tumores malignos como carcinoma basocelular e melanoma amelanótico. Como o diagnóstico definitivo pode ser difícil apenas pelos achados clínicos, se houver uma massa cística na pálpebra, é aconselhável procurar um oftalmologista e realizar exame histológico.
A causa do hidrocistoma apócrino ainda não é totalmente esclarecida. A principal hipótese é uma proliferação neoplásica por desregulação das células secretoras das glândulas sudoríparas apócrinas, sendo considerado uma neoplasia adenomatosa, e não apenas uma retenção simples de secreções1)5).
As hipóteses sobre sua ocorrência são as seguintes.
Implantação epitelial por trauma: foi proposta como uma hipótese para a ocorrência intraorbital, mas muitos casos não têm histórico de trauma2).
Origem congênita: sugere-se que a inclusão epitelial durante o período embrionário possa formar um cisto3).
Relação com doenças hereditárias: em casos múltiplos, foram relatadas associações com a síndrome de Schopf-Schulz-Passarge e a síndrome de Goltz-Gorlin (displasia ectodérmica)5).
Não foi estabelecido um fator predisponente claro, e não há registros de regressão espontânea5).
Pode ser suspeitado pelo aspecto (tom azulado, formato em cúpula, mobilidade e transiluminação), mas a precisão do diagnóstico clínico é limitada. Mesmo quando diagnosticado como hidrocistoma antes da cirurgia, a histologia pode mostrar cistadenoma (tipo proliferativo) ou pode ser confundido com um cisto epidermoide4).
TC: lesões próximas ao ducto nasolacrimal aparecem como uma sombra nodular de tecido mole3).
MRI: apresenta hipersinal em T2/STIR e uma massa cística bem delimitada. Pode ser diagnosticada erroneamente como hemangioma cavernoso ou cisto epidermoide2)4).
O exame histopatológico por biópsia excisional após a remoção é essencial para o diagnóstico definitivo. O tumor removido deve ser sempre fixado em formalina e diagnosticado ao microscópio.
As principais alterações histológicas são as seguintes.
Estrutura cística: cisto unilocular ou multilocular1).
Epitélio em duas camadas: a camada interna consiste em epitélio secretor cúbico a colunar, e a camada externa em células mioepiteliais1)2)3).
Secreção por decapitação (decapitation secretion): padrão de secreção característico das glândulas apócrinas, no qual a porção apical da célula se projeta e se desprende1)2)3).
Grânulos de lipofuscina: positivo para sinéquias anteriores periféricas da íris. Causa a tonalidade azulada do líquido do cisto1)5).
Projeções papilares: podem ser observadas papilas verdadeiras com um eixo de tecido conjuntivo vascular4).
O tipo proliferativo (cistadenoma) e o tipo não proliferativo são diferenciados com base na classificação de Sugiyama et al.4).
Tipo proliferativo (cistadenoma)
Papilas verdadeiras: são observadas projeções papilares com um eixo de tecido conjuntivo vascular.
Hiperplasia adenomatosa: Mostra alterações proliferativas no lúmen.
ER/PR positivo: Os receptores de estrogênio e progesterona são positivos em cerca de 80% dos casos4).
Tipo não proliferativo (cisto sudoríparo)
Pseudo-papilas: Observam-se apenas pseudo-papilas sem eixo de tecido conjuntivo.
Cisto simples: Sem proliferação intraluminal.
ER/PR negativo: Os receptores hormonais geralmente são negativos4).
A imuno-histoquímica mostra CK7 positivo e p63 positivo (células mioepiteliais)5).
Os principais diagnósticos diferenciais estão listados abaixo.
Diagnóstico diferencial
Pontos de diferenciação
Hidrocistoma écrino
Deriva das glândulas écrinas. Frequentemente múltiplo
QPode ser diferenciado de outros tumores orbitários na RM?
A
Lesões císticas com hipersinal em T2 podem ser diagnosticadas erroneamente como hemangioma cavernoso2). Se houver septos internos, a diferenciação de cisto epidermoide também é um problema4). O diagnóstico definitivo apenas com RM é difícil, e no fim a confirmação histopatológica é necessária.
A ressecção cirúrgica completa com margem estreita é a primeira escolha1)2). Pode ser realizada sob anestesia local1)4), e o prognóstico é excelente quando a lesão é completamente removida. Há relatos de recorrência após ressecção incompleta2).
Se a parede do cisto for fácil de romper, foi descrita uma técnica intraoperatória em que cola de fibrina é misturada com fluoresceína (ou verde de indocianina, azul de tripano ou azul de metileno) para preencher o cisto e facilitar a confirmação da margem de ressecção2).
Lesões pequenas e assintomáticas também podem ser acompanhadas2).
Ressecção cirúrgica
Indicações: lesões sintomáticas ou lesões que precisam de diagnóstico definitivo.
Método: excisão completa sob anestesia local com margem estreita.
Taxa de recorrência: mínima com excisão completa.
Vantagem: é possível obter o diagnóstico definitivo ao mesmo tempo.
Terapias alternativas
Punção com agulha: simples, mas a parede do cisto permanece e a taxa de recorrência é alta1)5).
Escleroterapia: injeção de glicose hipertônica dentro do cisto1)2).
Ácido tricloroacético: eficaz para lesões de até 15 mm2).
Vaporização com laser de CO2: adequada para lesões múltiplas dispersas2)5).
Também foram relatados outros tratamentos alternativos, como toxina botulínica A1), punção com agulha após aplicação tópica de creme de atropina a 1% ou creme de escopolamina5), e eletrocirurgia5).
QPor que os tratamentos que não são excisão tendem a recidivar?
A
Na punção com agulha, o conteúdo do cisto pode ser drenado, mas como a parede do cisto permanece, o líquido volta a se acumular e recidiva. A remoção completa da parede do cisto é a chave para evitar a recorrência, e a excisão cirúrgica é recomendada1)5).
6. Fisiopatologia e mecanismo detalhado de surgimento
O hidrocistoma apócrino surge por uma proliferação cística adenomatosa da porção secretora da glândula sudorípara apócrina. Não é apenas um cisto de retenção de secreção, mas uma neoplasia adenomatosa1)5).
A parede do cisto é formada por um epitélio de duas camadas (camada interna secretora + camada externa mioepitelial), refletindo sua origem na glândula apócrina. O epitélio secretor da camada interna apresenta a secreção por decapitação (decapitation secretion) característica das glândulas apócrinas. A porção apical da célula se projeta formando um apical snout e se desprende como parte do processo de secreção1)2)3).
O líquido do cisto contém grânulos de lipofuscina (PAS-positivos), que são a causa da tonalidade azulada observada clinicamente1)5).
No tipo proliferativo (cistadenoma), observa-se proliferação papilífera e adenomatosa intraluminal, com formação de papilas verdadeiras com eixo de tecido conjuntivo vascular4). Cerca de 80% dos casos proliferativos são positivos para receptor de estrogênio (ER) e receptor de progesterona (PR), enquanto os não proliferativos são negativos4). Esses achados sugerem a participação de um mecanismo proliferativo dependente de hormônios.
Foi sugerida a possibilidade de uma progressão em várias etapas de hidrocistoma para cistadenoma e depois para carcinoma de glândulas sudoríparas produtor de mucina endócrina (endocrine mucin-producing sweat gland carcinoma)4).
Origem intraorbitária: Foi proposta a hipótese de deslocamento de células epiteliais para a órbita por trauma, mas muitos casos não têm histórico de trauma2).
Origem congênita: Sugere-se que a formação de cistos possa ocorrer devido à inclusão epitelial durante o desenvolvimento embrionário3).
7. Pesquisas mais recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)
Foi proposta uma distinção entre o tipo proliferativo (cistadenoma) e o tipo não proliferativo com base na classificação de Sugiyama e colaboradores4). A presença ou ausência de papilas verdadeiras com núcleo de tecido conjuntivo serve de base para a classificação.
Al Ghulaiga et al. (2024) relataram quatro casos de cistadenoma apócrino periocular e mostraram que três casos diagnosticados clinicamente como hidrocistoma antes da cirurgia eram histologicamente do tipo proliferativo (cistadenoma). ER/PR foram fortemente positivos em 80% dos casos do tipo proliferativo, confirmando diferenças biológicas em relação ao tipo não proliferativo4).
Avaliação do risco de malignidade por imunohistoquímica de ER/PR
Tem sido sugerido que o tipo proliferativo (cistadenoma) pode ser uma lesão precursora do carcinoma de glândulas sudoríparas produtor de mucina endócrina4). O desafio futuro é estratificar o risco de malignização por imunocoloração para ER/PR.
Está em andamento uma avaliação sistemática da eficácia e das taxas de recorrência de tratamentos minimamente invasivos, como ablação a laser de CO2, escleroterapia com glicose hipertônica e injeção de ácido tricloroacético2).
Huang et al. (2022) relataram uma técnica de marcação intraoperatória em que a fluoresceína foi misturada com cola de fibrina para preencher o cisto, mostrando que é útil para confirmar a excisão completa2).
Sahu et al. (2023) relataram o primeiro caso de um cisto apócrino ao longo do ducto nasolacrimal3). A diferenciação em relação a cisto do saco lacrimal, cisto dermoide e mucocele do saco lacrimal é importante, e é necessário acumular mais casos nesse local.
Cape HT, Mukit FA, Mukit M, Anelo OM, Krassilnik N, Dadireddy K. Apocrine Hidrocystoma of the Upper Eyelid. Eplasty. 2022;22:ic13. PMID:36072057; PMCID:PMC9412026.
Huang V, Lee V, Briceño CA.. Orbital apocrine hidrocystoma with ptosis. Am J Ophthalmol Case Rep. 2022;28:101747. doi:10.1016/j.ajoc.2022.101747. PMID:36393905; PMCID:PMC9650017.
Sahu SK, Poddar C, Parija S, Moharana B.. Rare Presentation of Apocrine Hidrocystoma Along the Nasolacrimal Duct. Eplasty. 2023;23:e74. PMID:38229963; PMCID:PMC10790148.
Al Ghulaiga FM, Alsulaiman AM, Maktabi AMY, Alkatan HM.. Peri-ocular proliferative apocrine hidrocystoma (cystadenoma): A clinicopathological case series. Int J Surg Case Rep. 2024;114:109085. doi:10.1016/j.ijscr.2023.109085. PMID:38086129; PMCID:PMC10726227.
Noviello C, Romano M, Trotta L, Alfano R, Ronchi A, Papparella A.. Unusual location of apocrine hidrocystoma in children: Case series. Int J Surg Case Rep. 2023;108:108419. doi:10.1016/j.ijscr.2023.108419. PMID:37364466; PMCID:PMC10382773.
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