As doenças oculares hereditárias (inherited eye disease) são um grupo de doenças que afetam várias estruturas do olho, como retina, nervo óptico, córnea e cristalino, sendo muitas causadas por mutações genéticas. O teste genético é essencial para o diagnóstico definitivo, identificação do padrão de herança e fornecimento de informações às famílias dos pacientes, sendo grande o papel do oftalmologista.
Os resultados dos testes são relatados em três categorias.
Resultado
Significado
Positivo
Detectada mutação causadora da doença
Negativo
Nenhuma mutação detectada na região alvo
VUS (variante de significado incerto)
Relação entre mutação e doença não estabelecida
VUS requer interpretação e análise adicional por especialistas, não podendo ser usado como base para diagnóstico.
QO que acontece se o resultado do teste genético for "variante de significado incerto (VUS)"?
A
VUS é um resultado cuja associação entre a mutação e a doença é atualmente desconhecida, não podendo ser determinado como “positivo” ou “negativo”. É necessária interpretação por um conselheiro genético especializado ou oftalmologista genético, e pode ser reclassificado com atualizações de banco de dados ou testes familiares adicionais.
No diagnóstico de doenças oculares hereditárias, recomenda-se prosseguir com os testes de forma gradual na seguinte ordem. 1)
Teste de painel genético: avalia vários genes específicos para um grupo suspeito de doenças de uma só vez. Oferece um bom equilíbrio entre custo e eficiência de análise.
Sequenciamento do exoma completo (WES): realizado quando o teste de painel não leva ao diagnóstico. A análise tripla (paciente + ambos os pais) melhora a precisão da interpretação de variantes.
Sequenciamento do genoma completo (WGS): Realizado quando o diagnóstico é difícil mesmo com WES. Pode detectar mutações em regiões não codificantes, como íntrons e regiões promotoras.
Quando o diagnóstico não é obtido pela abordagem gradual de painel → WES → WGS, métodos complementares como RNA-seq, sequenciamento de longa leitura e ensaios funcionais são considerados. 1)
A reanálise periódica de dados de exoma e genoma pode detectar novas variantes causais não identificadas na análise inicial, com relatos de aumento de até 20% na taxa de diagnóstico. 1)
QQual é a diferença entre o sequenciamento completo do exoma e o sequenciamento completo do genoma?
A
O WES tem como alvo a região do exoma que codifica proteínas (cerca de 1-2% de todo o genoma) e tem um custo relativamente baixo. O WGS analisa todo o genoma, incluindo íntrons, promotores e regiões reguladoras, podendo detectar mutações em regiões não codificantes, mas com maior custo e volume de dados.
QEm que ordem os testes genéticos são realizados?
A
Geralmente, recomenda-se uma abordagem gradual: teste de painel → WES → WGS. 1) Primeiro, os genes relacionados ao grupo de doenças suspeitas são avaliados por teste de painel; se o diagnóstico não for alcançado, prossegue-se para o WES. Se ainda assim o diagnóstico for difícil, o WGS é considerado.
Os seguintes bancos de dados são utilizados para determinar o significado clínico das mutações. 1)
RetNet: banco de dados abrangente de genes relacionados a doenças oculares. Contém a correspondência entre genes de doenças descobertos e fenótipos.
ClinVar: banco de dados do NCBI que acumula, como dados públicos, a associação entre variantes genéticas e doenças.
LOVD (Leiden Open Variation Database): banco de dados aberto que acumula informações de variantes para cada gene. Permite pesquisar informações de variantes compartilhadas por pesquisadores e clínicos.
7. Pesquisas recentes e perspectivas futuras (relatos em fase de pesquisa)
voretigene neparvovec (Luxturna): primeiro medicamento de terapia genética oftalmológica aprovado pelo FDA e EMA em 2017 para distrofia retiniana hereditária (LCA2) causada por mutações no gene RPE65.1) Administrado por injeção sub-retiniana com vetor AAV.
Efeito em coorte pediátrica: na terapia genética com AAV para coroideremia (mutação no gene CHM) (Fase III), foi relatada estabilização da visão em coorte pediátrica.1)
Pesquisa / Fase de ensaios clínicos
Doença de Stargardt (mutação ABCA4): Terapia com vetores AAV duplos e oligonucleotídeos antissenso (ASO) em andamento em fase I/II. 1)
Acromatopsia (mutações CNGA3/CNGB3): Terapia gênica com vetor AAV em avaliação em fase I/II. 1)
Síndrome de Usher tipo 1B (mutação MYO7A): Terapia com vetor AAV duplo para genes grandes em andamento em fase I/II. 1)
Retinosquise ligada ao X (mutação RS1): Terapia com vetor AAV8 em avaliação em fase I/II. 1)
Na terapia genética oftalmológica, o vetor AAV (vírus adeno-associado) é o sistema de entrega mais utilizado. 1) O olho é um local imunoprivilegiado e permite administração local minimamente invasiva, tornando-se um órgão-alvo principal para terapia genética.
QAté que ponto avançou a terapia genética para doenças oculares hereditárias?