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Neuro-oftalmologia

Sinais Oftalmológicos na Insônia Familiar Fatal

1. Quais são os sinais oftalmológicos na insônia familiar fatal?

Seção intitulada “1. Quais são os sinais oftalmológicos na insônia familiar fatal?”

A Insônia Familiar Fatal (FFI) é uma doença priônica hereditária causada pela substituição do ácido aspártico por asparagina no códon 178 do gene PRNP (mutação D178N). É herdada de forma autossômica dominante, com risco de desenvolver a doença ao longo da vida superior a 90%. 1)

Relatado pela primeira vez por Lugaresi et al. em 1986. Cerca de 70 famílias com FFI e 25 casos de insônia fatal esporádica (sFI) foram relatados em todo o mundo, sendo uma doença extremamente rara. 2)

O polimorfismo do códon 129 (tipo Met-Met ou Met-Val) influencia a expressão do fenótipo da doença. Na etnia Han, a frequência do gene homozigoto Met-Met (M/M) é maior do que em europeus, podendo haver maior suscetibilidade. 3) A idade de início varia de 12 a 89 anos, com média de cerca de 50 a 51 anos. A duração da doença é relatada entre 8 e 72 meses. 1)

Os três sintomas principais da FFI são distúrbios do sono, disfunção motora e hiperatividade autonômica. Sinais oftalmológicos (intersacadas e diplopia flutuante) podem aparecer desde o início da doença.

A insônia fatal esporádica (sFI) apresenta quadro clínico semelhante ao da FFI, mas não é acompanhada por mutações no PRNP.

Q Quão rara é a insônia familiar fatal?
A

Apenas cerca de 70 famílias com FFI e 25 casos de sFI foram relatados em todo o mundo, sendo uma doença priônica extremamente rara. 2) Diz-se ser mais comum em famílias com certas origens étnicas, como a etnia Han.

  • Diplopia flutuante: Um dos sintomas que pode aparecer precocemente na FFI. No primeiro caso descrito por Lugaresi, a diplopia transitória surgiu 6 meses após o início da insônia.
  • Visão turva: O paciente pode perceber embaçamento visual.
  • Distúrbios do sono: Insônia progressiva, comportamento onírico (comportamento semelhante a sonhos vívidos) e distúrbios respiratórios do sono. Estes são os sintomas centrais da FFI.
  • Hipersonia e sonolência diurna: Insônia e hipersonia podem coexistir. 2)
  • Sintomas psiquiátricos: Alucinações visuais e auditivas, depressão, ansiedade, agressividade, desinibição. 1)2)3)
  • Declínio cognitivo: De distúrbio de atenção e perda de memória para demência progressiva. 1)

Achados Clínicos (achados confirmados pelo médico no exame)

Seção intitulada “Achados Clínicos (achados confirmados pelo médico no exame)”

Achados neuroftalmológicos são importantes como achados precoces característicos desta doença.

  • Intrusões sacádicas (saccadic intrusions): A anormalidade do movimento ocular mais proeminente e consistente na FFI. Movimentos oculares involuntários de salto durante a fixação. Encontrado em todos os 6 pacientes iniciais com FFI relatados por Mastrangelo.
  • Movimentos oculares sacádicos: Apareceram no caso de Lugaresi 7 meses após o início da insônia.
  • Hiperatividade parassimpática pupilar: Confirmada pelo teste de dilatação pupilar com cocaína 4% e homatropina 5%.
  • Espasmo de convergência ocular: Observado no caso de FFI de uma mulher de 54 anos por Patel et al. Confirmado durante avaliação oftalmológica no mesmo caso que se iniciou com diplopia. 2)
  • Esoforia descompensada: Confirmada durante avaliação oftalmológica no mesmo caso. 2)

Outros sinais clínicos sistêmicos são os seguintes:

  • Disfunção autonômica: Hipertensão, taquicardia, taquipneia, febre, hiperidrose, aumento da lacrimejamento, disfunção erétil, incontinência esfincteriana.
  • Anormalidades motoras: Disfagia, disartria, ataxia, espasticidade, mioclonia, apraxia da marcha.
  • Diferença do tipo de doença pelo polimorfismo do códon 129: O tipo Met-Met apresenta comportamento onírico, confusão periódica, sinais autonômicos proeminentes e curso rápido com média de 9 a 10 meses. O tipo Met-Val apresenta distúrbios motores somáticos graves e incontinência desde o início, com duração da doença 2 a 3 vezes maior que o tipo Met-Met.
Q Em que estágio da FFI os sintomas oftalmológicos aparecem?
A

A intrusão sacádica e a diplopia flutuante podem aparecer desde o início da FFI. No estudo de Mastrangelo, intrusão sacádica foi encontrada em todos os pacientes com FFI inicial, podendo ser um indicador precoce de dano talâmico. A diplopia pode ser o primeiro sintoma da FFI e levar à consulta médica. 2)

A causa da FFI é a mutação D178N no gene PRNP (cromossomo 20: GAC→AAC). A mutação causa enovelamento incorreto da proteína priônica normal (PrP) para a isoforma anormal (PrPSc), resultando no acúmulo de PrP insolúvel no tecido nervoso e degeneração.

  • Mutação do códon 178 (D178N): Substituição de ácido aspártico por asparagina. Forma o tipo de doença característico da FFI. 1)
  • Interação com o polimorfismo do códon 129: O resíduo de metionina no códon 129 não mutado interage com D178N, formando uma isoforma anormal de PrP específica da FFI. Quando o códon 129 é um resíduo de valina (tipo Val-Met), resulta em um tipo diferente de doença, como a GSS.
  • Tipo homozigoto Met-Met: Mais comum em asiáticos orientais e pode estar associado a uma progressão mais rápida. A frequência do gene 129 M/M em chineses (han) é significativamente maior do que em europeus. 3)
  • Penetrância: O risco ao longo da vida de desenvolver a doença devido à mutação D178N excede 90%. É difícil prever a idade de início entre pais e filhos, e não há tendência sistemática de início mais precoce entre gerações. 1)
  • FFI esporádica (sFI): Não acompanhada de mutação PRNP, mas apresenta quadro clínico e patológico semelhante à FFI. Acredita-se que o mecanismo de início seja diferente.

O diagnóstico de FFI é difícil e frequentemente tardio. RM, EEG e exame do LCR podem ser normais, exigindo alta suspeita clínica.

  • Teste Genético: Padrão-ouro para diagnóstico definitivo. Identifica a mutação GAC→AAC (D178N) no gene PRNP. 1)
  • Polissonografia (PSG): A perda de fusos do sono e complexos K é característica e útil para o diagnóstico. No caso de Tan, registrou-se cerca de 1 hora de sono efetivo, REM de latência curta, apneia obstrutiva e REM excessivo. 3)
  • Ressonância magnética cerebral: Na FFI, as alterações de restrição à difusão típicas da DCJ geralmente não são observadas. Pode mostrar atrofia cortical leve ou sinal elevado em áreas de substância cinzenta. A FFI não pode ser excluída mesmo com RM normal. 2) No caso de Tan et al., observou-se atrofia frontotemporal e atrofia hipocampal. 3)
  • FDG-PET: O hipometabolismo talâmico é característico da FFI. Com a progressão da doença, o hipometabolismo se expande para o giro do cíngulo, sistema límbico e córtex cerebral (especialmente lobo frontal). No estudo de Cortelli et al., o PET seriado do mesmo paciente confirmou o aumento gradual das áreas de hipometabolismo, coincidindo com a distribuição de PrPSc. 1)

A tabela a seguir resume os principais exames e achados.

ExameAchado/Sensibilidade
EEGOndas θ e δ excessivas. Geralmente sem complexos de ondas agudas periódicas típicos da DCJ
Proteína 14-3-3 no LCRAnormal apenas em 50% dos pacientes com FFI2)
RT-QuIC no LCRPositivo em 83% dos FFI e 50% dos sFI2)
CSF T-Tau >284 pg/mlSensibilidade do diagnóstico de FFI 78%, especificidade 80%1)
  • Cintilografia com DaTscan: captação reduzida nos gânglios da base (positivo no caso de Patel e colaboradores). 2)
  • Biópsia cerebral: Geralmente negativa na FFI. O PrPSc pode ser difícil de detectar por imuno-histoquímica convencional, sendo a análise de PET blot útil. 2)
  • Exame cerebral pós-morte: Redução de 50-80% dos neurônios grandes nos núcleos anterior e dorsomedial do tálamo, astrogliose (aumento de 2 a 3 vezes dos astrócitos reativos) é confirmada. 2)

Para o diagnóstico clínico de “provável”, além das alterações relacionadas ao sono, é necessária disfunção autonômica progressiva ou sinais motores somáticos.

  • Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): Período de doença mais curto que a FFI, apresentando alterações espongiformes extensas. Distúrbios do sono e disfunção autonômica não são tão proeminentes quanto na FFI.
  • Síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker (GSS): Curso lento. Perda progressiva do controle motor precede o declínio cognitivo.
  • Encefalite autoimune: Diferenciada por testes de anticorpos e resposta à imunoterapia. 1)2)
  • Demência com corpos de Lewy (DCL): Pode apresentar sintomas psiquiátricos e alucinações visuais semelhantes. 2)
Q É possível diagnosticar FFI sem teste genético?
A

O teste genético é o padrão-ouro, sendo difícil confirmar o diagnóstico sem ele. Ressonância magnética (RM), eletroencefalograma (EEG) e exame do líquido cefalorraquidiano (LCR) (proteína 14-3-3, RT-QuIC) podem todos apresentar resultados normais, não excluindo a FFI. 2) Se a polissonografia (PSG) mostrar desaparecimento dos fusos do sono e a tomografia por emissão de pósitrons com fluordesoxiglicose (FDG-PET) mostrar hipometabolismo talâmico, isso fornece forte evidência para o diagnóstico.

Atualmente, não existe tratamento curativo eficaz para a FFI. O manejo é centrado em terapia sintomática e cuidados paliativos.

  • Terapia sintomática: Tratamento sintomático para sintomas autonômicos, motores e psiquiátricos, respectivamente.
  • Cuidados paliativos: Considerando a irreversibilidade da doença, é importante um cuidado abrangente que visa manter a qualidade de vida e aliviar o sofrimento. 2)
  • GHB (ácido gama-hidroxibutírico): Foi relatado efeito estimulante do sono de ondas lentas em um caso, mas o impacto na duração da doença é desconhecido.
  • Aconselhamento genético: Apoio e informação para famílias em risco são importantes. 1)2)
Q Os medicamentos para dormir são eficazes para a insônia na FFI?
A

Medicamentos para dormir e sedativos comuns, incluindo benzodiazepínicos, são ineficazes para a insônia na FFI. 3) Acredita-se que isso ocorre porque a insônia na FFI é devida à degeneração neuronal do tálamo, tornando difícil a indução do sono por medicamentos. O GHB foi relatado para induzir sono de ondas lentas em um caso, mas a melhora do prognóstico não foi confirmada.

A patologia central da FFI é a degeneração seletiva do tálamo. A proteína PrP normal se enovela incorretamente na isoforma anormal (PrPSc), e a PrPSc atua como molde para sua própria replicação, levando ao acúmulo de PrP insolúvel resistente a protease e à progressão da degeneração neuronal.

Degeneração Talâmica e Anormalidades dos Movimentos Oculares

Seção intitulada “Degeneração Talâmica e Anormalidades dos Movimentos Oculares”

Degeneração do Tálamo

Núcleo anterior e núcleo dorsomedial do tálamo: 50-80% dos neurônios grandes são perdidos. Os astrócitos reativos aumentam 2-3 vezes (astrogliose).

Achados de FDG-PET: O metabolismo na região talâmica diminui significativamente. É a principal causa de distúrbios do sono e disfunção autonômica.

Lesões em outras regiões cerebrais

Córtex cerebral, córtex cerebelar e núcleo olivar: Ocorre gliose reativa. Raramente acompanhada de alterações espongiformes no córtex cerebral, mas são relativamente leves e pouco frequentes.

Correspondência com a distribuição de PrPSc: O padrão de progressão da redução metabólica demonstrou corresponder à distribuição cerebral de PrPSc. 1)

Mastrangelo e colaboradores sugeriram que o tálamo é danificado primeiro antes do aparecimento dos sintomas clínicos. Como o tálamo desempenha um papel importante no controle dos movimentos oculares, o distúrbio de fixação com intrusão sacádica pode ser um indicador de dano talâmico precoce na FFI.

Cortelli et al. confirmaram por meio de FDG-PET seriado no mesmo paciente com FFI que o hipometabolismo inicial no tálamo se expande gradualmente para o giro do cíngulo, sistema límbico e córtex cerebral (córtex frontal basal e córtex frontal lateral). Essa distribuição corresponde à disseminação de PrPSc no cérebro. 1)

  • Imuno-histoquímica convencional: A detecção de PrPSc é frequentemente difícil na FFI. 2)
  • Análise de PET blot: Pode detectar PrPSc no lobo temporal medial mesmo em casos difíceis de detectar por IHQ convencional. No caso de Patel et al., um fragmento parcialmente resistente à protease (tipo 2B) foi confirmado por Western blot. 2)

7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)

Seção intitulada “7. Pesquisas Recentes e Perspectivas Futuras (Relatórios em Fase de Pesquisa)”

Limitações Diagnósticas do RT-QuIC e Tendências de Pesquisa

Seção intitulada “Limitações Diagnósticas do RT-QuIC e Tendências de Pesquisa”

Patel e colaboradores relataram um caso diagnosticado como FFI após a morte, apesar do RT-QuIC no LCR ser negativo. 2) O RT-QuIC atinge sensibilidade de 97% e especificidade de 100% na sCJD, mas a sensibilidade diminui em doenças priônicas hereditárias e atípicas como FFI, GSS e sFI (FFI: 83%, sFI: 50%). Há limitações como biomarcador antemortem no diagnóstico de FFI, exigindo o desenvolvimento de ensaios aprimorados.

Schmitz et al. avaliaram a precisão dos biomarcadores do LCR na doença priônica hereditária e relataram que, em pacientes com FFI, T-Tau >284 pg/ml apresentou sensibilidade de 78% e especificidade de 80%. 1) Além disso, o estudo de coorte de doença priônica hereditária na China por Chen et al. mostrou que 41,47% dos pacientes com FFI apresentaram T-Tau <2000 pg/ml, e os casos com mioclonia tiveram T-Tau relativamente mais alto. 1)

Wang et al. relataram um caso de FFI com pleocitose no LCR (36,60×10⁶/L na primeira punção) durante a pandemia de COVID-19. 1) A pleocitose no LCR na doença priônica é rara, mas há relatos (aumento leve em 5 de 26 casos de DCJ hereditária e 3 de 298 casos de DCJ esporádica), sugerindo mecanismos diferentes da reação inflamatória clássica. A pleocitose pode ser confundida com infecção ou encefalite autoimune, causando atraso no diagnóstico.

Desenvolvimento de Terapias Direcionadas ao Príon Causador

Seção intitulada “Desenvolvimento de Terapias Direcionadas ao Príon Causador”

O desenvolvimento de terapias direcionadas à formação de PrPSc com a mutação D178N é o objetivo final da pesquisa. Como a penetrância excede 90%, no futuro será considerado o desenho de ensaios de intervenção preventiva em portadores assintomáticos da mutação. Devido à dificuldade em prever a idade de início entre pais e filhos, ainda há desafios no desenho de ensaios preventivos. 1)


  1. Wang Z, Huang Y, Wang S, et al. A case report of fatal familial insomnia with cerebrospinal fluid leukocytosis during the COVID-19 epidemic and review of the literature. Prion. 2024;18(1):1-10.

  2. Patel D, Ibrahim H, Rankin J, et al. Fatal insomnia: the elusive prion disease. BMJ Case Rep. 2021;14:e241289.

  3. Tan Y, Liang J, Li X, et al. A fatal familial insomnia patient newly diagnosed as having depression: A case report. Medicine. 2021;100:41(e27544).

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