O sistema de exibição 3D em cirurgia oftalmológica (cirurgia heads-up / microscopia digital 3D) é um método no qual o sistema óptico do microscópio cirúrgico é filmado por uma câmera, e a imagem é exibida em um monitor 3D grande, permitindo que o cirurgião realize a operação. O cirurgião não olha diretamente para as oculares do microscópio, mas usa óculos 3D (polarizados ou de obturador de cristal líquido) e assiste ao monitor enquanto opera.
Contexto histórico: O conceito de cirurgia heads-up foi relatado pela primeira vez em 2010 por Weinstock e colaboradores. Posteriormente, sua aplicação em cirurgia vitreorretiniana foi relatada por Eckardt e Paulo, e se espalhou por toda a oftalmologia.
Na cirurgia com microscópio óptico convencional, o cirurgião precisava aproximar os olhos das oculares e manter uma postura inclinada para frente por longos períodos. O sistema de exibição 3D é uma inovação tecnológica que elimina fundamentalmente essa sobrecarga postural.
QO que muda com a cirurgia heads-up?
A
Na cirurgia com microscópio convencional, o cirurgião mantém uma postura inclinada para frente com os olhos próximos às oculares, enquanto na cirurgia heads-up, o cirurgião olha para um monitor 3D grande em uma postura natural com a cabeça erguida. Isso reduz a sobrecarga postural no pescoço e na região lombar, e facilita a observação simultânea por várias pessoas para fins educacionais.
A seguir estão as principais vantagens que o sistema de visualização 3D oferece em comparação com o microscópio óptico convencional.
Ergonomia (Melhora da Postura): 62% dos oftalmologistas apresentam sintomas cervicais, sendo a manutenção da saúde do cirurgião um desafio sério. Com o sistema de visualização 3D, o cirurgião pode operar em uma posição sentada natural com a cabeça erguida, reduzindo significativamente a carga no pescoço e na região lombar.
Contribuição para Educação e Colaboração: A imagem do campo cirúrgico pode ser exibida simultaneamente em vários monitores. O instrutor e o estagiário podem compartilhar a mesma imagem durante a cirurgia, melhorando a eficiência do treinamento. Visitantes e equipe da sala de cirurgia também podem visualizar a situação intraoperatória com o mesmo campo de visão.
Realce de Imagem Digital: A imagem digital capturada pela câmera pode ser processada em tempo real. Aumento de contraste, redução de ruído, filtros digitais e correção de cor podem ser aplicados durante a cirurgia, sendo utilizados para melhorar a visibilidade da coloração da membrana limitante interna (ILM).
Redução da Exposição à Luz Retiniana: O sistema de visualização 3D permite cirurgia com baixa iluminação, reduzindo a exposição da retina à luz em comparação com o microscópio convencional1). Esta é uma característica importante para reduzir o risco de dano retiniano por fototoxicidade.
Melhora do Conforto do Cirurgião: A fadiga do cirurgião durante cirurgias longas é reduzida, e espera-se que a concentração seja mantida1).
Comparação das principais características entre o sistema de visualização 3D e o microscópio óptico convencional.
Característica
Sistema de Visualização 3D
Microscópio Convencional
Postura do Cirurgião
Cabeça erguida (postura natural)
Inclinado para frente (visão direta pela ocular)
Exposição à Luz
Reduzida1)
Padrão
Processamento de imagem
Realçável digitalmente
Apenas sistema óptico
QO sistema 3D afeta os resultados cirúrgicos?
A
O sistema de visualização 3D demonstrou eficácia equivalente ao microscópio óptico convencional1). Em termos de resultados cirúrgicos (recuperação visual e desfechos anatômicos), não é inferior ao microscópio óptico existente, e supera em ergonomia, redução da exposição à luz e aprimoramento digital de imagem.
O sistema de visualização 3D é aplicável a uma variedade de procedimentos oftalmológicos.
Cirurgia de Catarata: O sistema TrueVision foi desenvolvido como uma plataforma pioneira para cirurgia heads-up 3D em catarata. A divisão do núcleo, facoemulsificação e inserção do LIO podem ser realizadas sob visualização 3D.
Cirurgia Vitreorretiniana: Esta é a área onde a cirurgia heads-up é mais amplamente reconhecida. Na cirurgia de buraco macular, o sistema de visualização 3D mostrou eficácia equivalente ao microscópio convencional, com redução da exposição à luz retiniana confirmada1). Vitrectomia, remoção de membrana e fotocoagulação a laser podem ser realizadas sob visualização 3D.
Cirurgia de Córnea: Foi relatada a aplicação de nDSAEK (nanoultrathin DSAEK) como aplicação para DSAEK (Ceratoplastia Endotelial Automatizada com Remoção da Membrana de Descemet). O manuseio de enxertos ultrafinos e injeção de bolhas podem ser realizados com precisão sob visualização digital.
Cirurgia de Glaucoma: Aplicações em cirurgias de segmento anterior, como trabeculectomia e cirurgia filtrante, também foram relatadas, e a expansão dos procedimentos elegíveis está em andamento.
Abaixo estão os sistemas de visualização 3D representativos que foram colocados em prática até o momento.
NGENUITY
Fabricante: Alcon
Monitor: Monitor 4K OLED 3D
Método de visão estereoscópica: Método de polarização
Características: Projetado para cirurgia de retina e vítreo. Opção de integração de OCT intraoperatório disponível. Equipado com filtros digitais e função de realce de contraste. Sistema comercial mais difundido atualmente.
TrueVision
Fabricante: TrueVision 3D Surgical
Cirurgia alvo: Cirurgia de catarata e cirurgia de segmento anterior
Método de visão estereoscópica: Método de obturador ativo
Características: Plataforma pioneira em cirurgia heads-up. Realizou visualização digital 3D em cirurgia de catarata desde o início. Integrável com ORA (medição de aberração intraoperatória).
Sony HMS-3000MT
Fabricante: Sony
Tipo: Sistema HMD (Head-Mounted Display)
Método de visão estereoscópica: HMS (Head-Mounted System)
Características: Fornece imagem para HMD usado pelo cirurgião. Dispensa monitor e é fácil de ajustar às diferenças individuais. Exemplo de forma que proporciona experiência estereoscópica ativa, não passiva.
Comparação das especificações dos três sistemas principais.
Esta seção explica as principais tecnologias integradas ao sistema de exibição 3D.
Exibição HDR (High Dynamic Range): Reproduz um amplo contraste do brilho alto ao baixo. Exibe naturalmente a diferença entre a cavidade vítrea escura e a luz brilhante, melhorando a visibilidade dos tecidos.
Alta Resolução 4K a 8K: A resolução principal atual é 4K (3840×2160 pixels), e a resolução 8K está sendo desenvolvida como a próxima geração. A alta resolução melhora a visibilidade da membrana limitante interna e das estruturas retinianas finas.
Filtros Digitais: O processamento de filtro pode ser aplicado em tempo real durante a cirurgia. Recursos como realce de cor da coloração da membrana limitante interna (por exemplo, Azul Brilhante G), correção de contraste e exibição de cores falsas estão disponíveis.
Integração de OCT Intraoperatório: Foi desenvolvida tecnologia para integrar a Tomografia de Coerência Óptica (OCT) ao microscópio cirúrgico, permitindo a exibição em tempo real de imagens de corte transversal em um monitor 3D1). O fechamento do buraco macular e a avaliação da remoção da membrana podem ser confirmados durante a cirurgia.
Amplificação de Sinal e Captura em Baixa Luminosidade: A alta sensibilidade do sensor da câmera permite obter imagens de alta qualidade enquanto reduz a quantidade de luz de iluminação. Este é o principal mecanismo de redução da exposição à luz na retina.
A visão estereoscópica por meio de sistemas de exibição 3D gera percepção de profundidade ao apresentar imagens independentes para os olhos esquerdo e direito. Dois métodos principais são usados.
Estereoscopia Ativa (Método Ativo): Usa óculos com obturadores de cristal líquido que alternam rapidamente entre abrir e fechar, sincronizados com o monitor para alternar imagens para o olho esquerdo e direito a cada quadro. Usado no sistema TrueVision.
Estereoscopia Passiva (Método Passivo): Usa óculos com filtros polarizadores. O monitor exibe imagens polarizadas horizontal e verticalmente simultaneamente, e os óculos polarizados separam para os olhos esquerdo e direito. Usado no sistema NGENUITY. A vantagem são óculos leves e sem necessidade de bateria.
Método HMS (Head-Mounted): Exibe a imagem diretamente em um HMD usado pelo cirurgião. Como a imagem é apresentada diante dos olhos do cirurgião sem um monitor, é fácil ajustar à distância interpupilar individual. O sistema Sony HMS-3000MT usa este método.
A unidade da câmera capta a luz através do divisor de feixe do microscópio cirúrgico. As imagens capturadas pelo sensor CMOS são processadas em tempo real e emitidas como imagem 3D. Minimizar a latência (atraso) é crucial para manter a precisão cirúrgica, e foi reduzida a um nível imperceptível nos sistemas atuais.
QA precisão cirúrgica diminui ao usar óculos 3D?
A
Tanto no método de polarização quanto no obturador, a latência (atraso de imagem) é reduzida a um nível imperceptível, e seu impacto na precisão cirúrgica do cirurgião é considerado mínimo. A eficácia dos sistemas de exibição 3D equivalente ao microscópio convencional foi confirmada 1). Sabe-se que há uma curva de aprendizado no início da introdução como questão de adaptação.
Resolução Ultra-Alta 8K: Sistemas compatíveis com 8K estão sendo desenvolvidos como a próxima geração da resolução 4K atual. Espera-se que a resolução 8K (7680 × 4320 pixels) permita a observação da microestrutura da membrana limitante interna e detalhes dos vasos sanguíneos da retina com precisão superior à anterior.
Desenvolvimento de Sistemas Montados na Cabeça (HMS): A melhoria dos HMDs (Head-Mounted Displays) que se adaptam completamente às características visuais individuais (distância interpupilar, correção refrativa) continua. HMDs de próxima geração com alta luminosidade e baixa latência, especializados para cirurgia, estão em fase de desenvolvimento.
Integração com Realidade Aumentada (AR): Estão em andamento pesquisas sobre sistemas cirúrgicos de AR que sobrepõem imagens de OCT intraoperatório, angiografia fluoresceínica e informações do paciente em tempo real no vídeo cirúrgico. O objetivo é realizar um ambiente onde o cirurgião possa acessar múltiplas informações sem desviar o olhar.
Aplicação Heads-Up na Lâmpada de Fenda: Relatos de tentativas de introduzir o sistema heads-up 3D no microscópio de lâmpada de fenda usado em consultas ambulatoriais, não apenas no microscópio cirúrgico, foram publicados. As vantagens incluem melhoria ergonômica durante o exame e facilidade de gravação de imagens.
Integração com Análise de Imagem por IA: Sistemas para analisar vídeo em tempo real usando inteligência artificial (IA) para identificação de tecidos e suporte à dissecção estão em desenvolvimento. A combinação com robôs cirúrgicos também está sendo estudada.
QOs sistemas de exibição 3D se tornarão equipamento padrão no futuro?
A
Com a redução dos custos tecnológicos e o acúmulo de evidências clínicas, a disseminação dos sistemas de exibição 3D está se expandindo. Múltiplas vantagens, como melhoria ergonômica do operador, redução da exposição à luz e processamento digital de imagens, estão sendo avaliadas, e a adoção em grandes instalações está aumentando. No futuro, espera-se que a integração com OCT intraoperatório e AR evolua para uma plataforma mais avançada.